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20 anos de Street Fighter III: 3rd Strike, um dos melhores e mais técnicos jogos de luta de todos os tempos

 

De 1999 pra cá, diversos jogos de luta foram lançados. Nesse período, o mercado de jogos viu o gênero perder força entre o público casual – o que coincidiu com o período em que a cultura dos arcades começou a morrer no ocidente – e anos mais tarde, viver um período de renascença, com a popularidade de torneios como a EVO, até os dias de hoje, em que o termo “ESports” é jogado em todas as direções em que haja algum jogo competitivo, com consequências que nem sempre são benéficas para os jogos em si.

Foi no ano de 99 que a Capcom lançou a última versão/revisão de Street Fighter III, subtitulada 3rd Strike, após resultados comerciais desastrosos dos dois jogos anteriores da série, New Generation, e 2nd Impact – Giant Attack. Esta última versão refinou os controles, o sistema de parry (que foi expandido com a introdução do red parry), o ritmo do jogo, trouxe Chun-Li de volta ao jogo, e com ela, foram introduzidos alguns personagens novos, como MakotoTwelve, Remy e Q.

E foi com 3rd Strike que a Capcom ousou pela última vez, entregando um jogo complexo, extremamente técnico, em que nada é entregue de graça ao jogador. Ousou também na trilha sonora, composta por Hideki Okugawa e com a participação memorável do rapper canadense INFINITE, trazendo batidas eletrônicas, hip-hop, jazz e mixes que, em conjunto com suas belíssimas sprites e animações com uma fluidez sem igual, conferem à 3rd Strike um carisma e identidade únicos. Com seu estilo diferenciado, o jogo é como uma obra de arte em movimento, fluindo livremente pela tela, alcançando o equilíbrio perfeito entre estilo e substância, 3rd Strike é o “Joga Bonito” dos jogos de luta, em que complexidade técnica e expressividade artística se unem às capacidades criativas dos jogadores para criar duelos lindíssimos em um supostamente limitado ambiente 2D.

 

 

Mas nem todo mundo abraçou ou entendeu 3rd Strike. O jogo, como era de se esperar, sofreu grande resistência por parte dos jogadores mais casuais, que diziam não gostar do jogo por ele ser complexo demais. Muitos dos fãs de Street Fighter II torceram o nariz, usando diversos argumentos sem lógica para desqualificar o jogo, indo desde afirmações como “o design dos personagens é estranho, todo mundo é esquisito” – algo curioso de se ouvir de alguém que defende um jogo que tem um monstro verde que dá choque e um mestre de yoga que estica seus membros – até o clássico “o parry é um sistema quebrado, você pode fazer parry em tudo e não tomar dano nunca”, quando basta assistir umas duas ou três partidas de alto nível pra ver como a afirmação é absurda. O jogo é sim, mais complexo, funciona de modo bem diferente de SFII (mais até do que a série Alpha) e a mecânica de parry realmente desencoraja o fireball spam (embora ainda seja muito possível fazer zoning; é só uma questão de saber fazer), e o fato de 3rd Strike ser conceitual e filosoficamente diferente em sua base foi o bastante pra afastar o pessoal, que no fim das contas, rejeitava o jogo por ele não ser Street Fighter II.

 

 

Isso fez com que a fanbase de 3rd Strike se tornasse um nicho dentro do nicho que é a FGC (Fighting Game Community), e por muitos anos foi assim, sobrevivendo com suas versões caseiras para Dreamcast, PS2 e Xbox, já que os arcades eram cada vez mais raros. Mas houve um momento em um evento – que na época era algo bem pequeno e modesto se compararmos com os dias de hoje – que mudou não só a percepção de boa parte do público sobre o jogo, mas também ajudou a reacender a chama dos jogos de luta no geral.

É muito provável que você já tenha assistido a esse vídeo pelo menos uma vez na vida, mesmo que você não tenha qualquer interesse em jogos de luta. O vídeo, que eternizou os momentos finais de uma partida entre Daigo Umehara e Justin Wong na EVO 2004, e veio a ser conhecido como Evo Moment #37 – de longe, o momento mais grandioso dos jogos competitivos – demonstra em alguns poucos segundos muito da essência de 3rd Strike, e é um dos raros exemplos de “hype videos” que surgiu de forma totalmente orgânica e inesperada.

 

 

Em 2011, quando 3rd Strike já havia alcançado status de jogo cult, a Capcom relançou o jogo no PS3 e Xbox 360 sob  nome de Street Fighter III: Third Strike – Online Edition, com suporte a multiplayer online, novas ilustrações feitas pelo incrível ilustrador Stanley “Artgerm” Lau, e implementação da tecnologia GGPO, que mitigava problemas entre conexões. Foi uma boa oportunidade para novatos terem sua primeira experiência com o jogo, sendo uma versão caseira bem superior às lançadas anteriormente. No entanto, o jogo ainda era o mesmo, com toda sua complexidade técnica intacta, e como foi lançado em um período em que jogos bem mais acessíveis ao público casual, como Street Fighter 4, Marvel vs Capcom 3 e Mortal Kombat 9, estavam sob os principais holofotes, Online Edition não alcançou a popularidade de seus concorrentes. No ano passado, 3rd Strike foi relançado novamente, desta vez em sua versão original, com parte da Street Fighter 30th Anniversary Collection, lançada para PS4, Xbox One, Switch e PC, juntamente com todos principais títulos da franquia lançados antes dele nos arcades.

No entanto, a história de 3rd Strike não pode ser contada apenas olhando para o ocidente. No Japão, onde a cultura dos arcades ainda vive, o jogo nunca morreu. Pelo contrário, até hoje existem torneios semanais, mensais e anuais de 3rd Strike nos principais arcades do Japão, como o MIKADO, o Game Spot Versus, HEY Arcade e o Game Newton. Alguns desses arcades, como o Game Spot Versus e o Game Newton até mesmo fazem transmissões ao vivo de torneios e eventos de 3rd Strike com regularidade, seja no Youtube ou no Twitch. O grande torneio de 3rd Strike é a Cooperation Cup, uma disputa em que os jogadores se dividem em times de cinco participantes, e acontece anualmente em Tokyo, no início de Janeiro, desde 2003, e em 2019 recebeu até uma cobertura com narração em inglês feita pelo canal ANIMEILLUMINATI, no Youtube.

 

 

Os maiores jogadores de 3rd Strike estão no Japão, com nomes como Tominaga, YSB, Vanao, Pierrot, RX, Deshiken, Kuroda e Nuki entre os melhores, mas mesmo no ocidente há jogadores de alto nível, como Nika KO, Pikachuakuma e Duralath. No Brasil, 3rd Strike é um jogo que pouca gente teve oportunidade de jogar nos arcades – eu me sinto um felizardo por ter tido acesso à essa máquina – e hoje a grande maioria joga atrávés do Fightcade. No mês passado, inclusive, houve no Rio o evento mensal Beer Reversal, que promove torneios de jogos de luta, e nesta ultima edição, 3rd Strike estava presente, ainda que na versão Online Edition (ela possui algumas diferenças em relação à versão original de arcade, ainda que mínimas e imperceptíveis para a maioria dos jogadores).

Hoje, 20 anos após seu lançamento original, 3rd Strike continua firme e forte, não tendo envelhecido um dia, com algumas técnicas novas sendo desenvolvidas até hoje, e comunidades ainda mais fortes e colaborativas, que se unem para organizar torneios, ensinar o jogo a novos jogadores, e manter acesa a chama desta verdadeira obra de arte em forma de videogame feita pela Capcom em um tempo em que  jogos eram feitos e jogados de uma forma completamente diferente dos tempos atuais.

Jogo os jogos que você não conhece e os que já esqueceu que existem. Sou fascinado pelo Famicom e meu forte são retrocoisas. Escrevo sobre joguinhos no Torre de Controle. Falo sobre jogos e NFL no meu Twitter @ramidraws. Don't Believe the Hype!