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Análise | Disaster Report 4: Summer Memories – Uma joia bruta nascida do caos

Desastres naturais sempre foram uma pauta difícil de discutir. Devido à um mundo imperfeito, no qual sofremos  nas mãos da natureza, o retorno do que causamos a ela, vivenciamos diversos desastres de proporções incalculáveis. Terremotos, tsunamis, furacões,  e tantos outros fenômenos que simplesmente ocorreram, e deixaram suas marcas na história da humanidade. No ano de 2011, Disaster Report 4 estava sendo desenvolvido, seguindo com a proposta de conscientizar e ao mesmo tempo tranquilizar e dar esperança para o povo japonês que havia sofrido diversas intempéries. Porém, o impensável ocorreu. No dia 11 de maio daquele ano, a Região de Tohoku no Japão sofreu um cismo seguido de um tsunami…

Em consequência ao desastre, o time da Irem cancelou o jogo e encerrou os planos de continuar a franquia, devido a diversas brigas com o órgão de classificação indicativa japonês o CERO. Depois o ocorrido, Kujou Kazumae (diretor da série Disater Report) e outros funcionários deixaram o estúdio. O grupo então fundou o Granzella, e após o sucesso de City Shrouded in Shadow, eles  compraram os direitos de Disaster Report e continuaram o desenvolvimento de seu 4º titulo. Agora passado um ano de seu lançamento oriental, Disaster Report 4 chega ao ocidente. E nessa análise finalmente descobriremos se toda essa espera valeu a pena.

Faça sua própria História

Tal qual as famosas Visual Novels, o jogo começa com um espécie de teste, com o foco de criar a personalidade e o direcionamento moral de seu protagonista. É possível também é possível escolher entre um personagem masculino ou feminino e customizá-lo com algumas opções pré-definidas. Após isso, o jogo nos coloca num contexto de estarmos viajando para uma cidade nova, e depois de diversas escolhas morais, um terremoto ocorre, nos colocando pra sobreviver num ambiente desconhecido e extremamente perigoso.

Já no Suiren Park (área inicial), nos é dado a possibilidade de explorar a região livremente e conhecer diversas pessoas, nas quais pedirão sua ajuda, e dependendo de sua escolha, você ganhará pontos de karma que podem pender pra bondade ou maldade. Antes de ajudar qualquer pessoa é colocado nos ombros do jogador, avaliar a índole das pessoas e se há segundas intenções em seus pedidos.

O perigo está em todo canto

Um elemento que foi bastante alardeado foram os terremotos e tremores periódicos. Eles sempre ocorrem em momentos chaves, e podem derrubar edifícios, pontes e postes. E mesmo se nada cair do céu em cima de você, se não ficar pressionado o botão de pânico (que o faz o personagem agachar numa posição segura) após o tremor, você irá cair de cara no chão, perderá vida e consequentemente aumentará a sua barra de stress.

Porém, apesar de sempre impactantes, esses momentos se tornam cada vez mais artificiais, devido ao fato de não serem aleatórios, ou seja, em determinadas ocasiões, um tremor só vai acontecer, se você passar exatamente por um lugar especifico. Mas mesmo sendo ativados por script, os maiores tremores do jogo são inesquecíveis. Houve momentos, nos quais meu personagem estava dentro de um prédio inclinado, realizando um salvamento, e um pequeno tremor ocorreu, não o matou, entretanto criou uma atmosfera extremamente tensa, em que tanto o protagonista quanto a pessoa que estava sendo resgatada tiveram que rastejar em meio a escombros e tremores em busca de uma saída. Mesmo não sendo um jogo de terror, esse momento me deixou mais apavorado do que qualquer outro que tive em Silent Hill.

Um exercício de empatia

Apesar dos terremotos serem grande coisa, o que realmente brilha nesse jogo, e o faz ser uma grande experiência são seus personagens. Sim, muitos deles seguem algum estereótipo japonês, entretanto o jogo faz um trabalho sensacional em desenvolvê-los junto ao seu avatar, tornando fácil a tarefa de se importar com sua segurança e bem estar.

Os melhores exemplos disso é o casal Kanae e Tomoya, que foram separados pelo desastre, e estão na busca de se reencontrar, você conhece cada um individualmente, vai descobrido suas virtudes e medos, e com isso inevitavelmente vai fazer de tudo pra reuni-los, o que torna qualquer simples intempérie num turbilhão de problemas, e, ao final da aventura, seu laço com eles é tão grande, que uma reviravolta se torna o maior plot twist da história devido ao seu envolvimento emocional. Por vezes abri mão de meus recursos, tomei decisões que arriscariam a vida do meu protagonista, simplesmente porque amava aqueles personagens, mas nem tudo é perfeito.

Existem quests no jogo que são só “uma barriga”, desde um cidade dividida em uma briga familiar no estilo Capuleto e  Montecchio,  até levar uma velhinha machucada até sua casa. Esses momentos causam certo desgaste no jogador, que prefere ter momentos angustiantes com terremotos, ao invés de desmascarar o mesmo vendedor falso pela quinta vez.

Imersão até demais

Para deixar a experiência mais imersiva, temos alguns sistemas de sobrevivência separados em status, nos quais são: fome, sede, necessidade de ir ao banheiro, stress e machucados, se qualquer um deles chegar ao máximo o protagonista morre, para alivia-los você pode comprar recursos em lojas, como: kit médico, Band-Aid, bebidas e comidas, para se aliviar das necessidades fisiológicas você sabe o que fazer. No caso do stress é um pouco diferente, essa barra só aumenta caso o seu personagem tome dano, e para remove-lo, é só ir para um savepoint e descansar. Apesar de interessantes, esses sistemas cumprem o papel de te fazer sentir no papel de um humano de verdade, mas a imposição de um sistema monetário atrapalha a imersão proposta nesse sistema, e durante a minha jornada, eu tive que enganar um milionário, para ter dinheiro o suficiente e me manter vivo, o que faz uma jogatina de karma extremamente bom muito punitiva, enquanto a de karma ruim, não faltam recursos ao enganar e extorquir todo mundo.

Uma jornada incrível à ser vivida por poucos

Disaster Report 4: Summer Memories é um dos produtos mais interessantes dos últimos tempos. Porém, seu baixo orçamento se mostra presente em problemas de carregamento de texturas, modelos de personagens feios e muito repetidos, e pela quantidade exacerbada de loadings. Mas essas situações, se mostram pequenas diante da experiência que é: sobreviver a esse terremoto, ao lado de personagens memoráveis. Para aqueles que amam jogos AAA extremamente bem polidos, com cenas de ação mirabolantes, mundo aberto extenso e cheio de possibilidades, eu te garanto, esse jogo não é pra você. Porém, para aqueles que, como eu, estão em busca de desbravar as experiências mais diferentes e inovadoras, esse jogo é extremamente recomendado.

Disaster Report 4: Summer Memories está disponível para PC Playstation 4 e Nintendo Switch desde 7 de abril de 2020.

Esta análise foi feita na versão de Playstation 4. O jogo foi gentilmente cedido pela NIS America para este review.

Revisão: Ailton Bueno

Me autodescrevo como um amante de jogos independentes mas na real só curto ver conceitos inusitados mesmo, filosofia barata e paixão por boas narrativas me definem. Seja Bem Vindo ao Incrível Mundo de Pedrão. Twitter: @FamigeradoPgm