Especial | Nem tudo é sobre a chegada

 

Baseado no conto A História da Sua Vida escrito por Ted Chiang, A Chegada é um filme dirigido por Denis Villeneuve e roteirizado por Eric Heisserer lançado em 2016. Ganhador do Oscar na categoria de edição de som, o filme também foi indicado em melhor fotografia, melhor diretor e melhor filme.

Acompanhamos a jornada da linguista Louise Banks (Amy Adams) que após 12 naves em forma de concha aparecerem do nada em diversos lugares do planeta, é chamada pelo exército para ajudar a estabelecer uma comunicação com os alienígenas. Ao lado do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) sua missão é descobrir quais são as intenções dos extraterrestres antes que seja tarde demais.

Os primeiros minutos do filme já estabelecem o tom de todo o longa. A trilha de Jóhann Jóhannsson embala o espectador em arranjos profundos, caminhando por uma linha muito tênue entre felicidade e tristeza, estabelecendo o clima calmo e tocante da trama, casando perfeitamente com a sequência inicial de Louise e sua filha.

E já também em seus primeiros minutos que Villeneuve prega uma peça brilhante, escorando-se nas experiências anteriores que temos com cinema para subverter nossas expectativas. Não é um recurso utilizado de forma barata, uma simples tirada de tapete para que nos surpreendamos mais para frente na história, mas uma decisão que se torna o pilar de uma das várias camadas do filme. Sem a sequência inicial, muito do impacto seria perdido.

A montagem de Joe Walker juntamente a direção de Villeneuve são cirúrgicas. Não há uma cena sequer que não adicione algum traço de personalidade e motivação aos seus poucos personagens. É verdade que acompanhamos o filme todo pelos olhos de Louise, mas o pouco que vemos das outras pessoas envolvidas na tentativa de comunicação com os heptapods, alienígenas do filme, são suficientes. Um pouco mais de tempo de tela para um personagem ou outro tiraria o foco da protagonista e essa não é a proposta, afinal, estamos acompanhando a transformação de Louise.

Essa é uma história totalmente guiada por sua protagonista, mas que não deixa de lado os impactos causados no mundo ao seu redor. Enquanto as equipes de Louise e Ian trabalham incessantemente para interpretar as mensagens dos heptapods, o medo da população vai crescendo. Seja pelo posicionamento de seus governantes, a forma de transmitir notícias da imprensa ou os discursos de influenciadores que se aproveitam da situação para propagar suas agendas violentas. (alá Alex Jones)

Apesar dos heptapods desde sua chegada a terra cooperarem com as tentativas de comunicação, o modo como a humanidade se porta diante de um fenômeno dessa magnitude gera conflitos. O medo se torna desconfiança, desconfiança se torna violência. Alguns saques ocorrem, países deixam de trocar informações a respeito de suas pesquisas, e após um erro causado pela própria natureza destrutiva da humanidade, a opção mais tentadora para os engravatados é a violência.

A violência é necessária em certas situações em nossa sociedade. Em alguns casos, ela é a única saída para pessoas oprimidas sistematicamente. Porém, quando estamos em situações de conflito, a violência muitas vezes é o nosso primeiro recurso utilizado, e assim, deixamos de lado a nossa maior arma: o diálogo.

Até o final do segundo ato a sensação de que alguma coisa pode dar terrivelmente errado é intensa, principalmente por esse impulso do ser humano de recorrer à violência mesmo em situações pacíficas. Vemos pessoas da ciência tentando achar uma forma de estabelecer uma conversa entre espécies, uma solução pacífica e de mútuo benefício, enquanto figuras de poder político preferem organizar possíveis represálias armadas.

A Chegada é um filme preciso, sensível e reflexivo. Com tantas camadas que é difícil encontrar duas pessoas com as mesmas lições tiradas da obra. Em uma dessas camadas, A Chegada pode ser sobre comunicação. Uma reflexão sobre como o simples ato de entender o outro pode mudar o mundo, e o quanto ainda temos que aprender.

Um exemplo de como nunca aprendemos realmente como nos comunicar é como nos últimos anos vimos a ascensão de governos autoritários, a disseminação de informações falsas e um levante de cultura anti-ciência fortíssimo ao redor do mundo. Fatos se tornaram uma questão de opinião e até o discurso de ódio mais radical é relativizado. Se comunicar com o próximo deixou de ser um dos pilares da nossa sociedade para se tornar uma barreira, quase como uma batalha a ser travada diariamente. Como humanidade, nos fechamos para o outro e decidimos que nossas conclusões, muitas vezes precipitadas, são inquestionáveis. Não importa o que o outro está falando. Não importa se ele não está conseguindo respirar. A única coisa que importa é que cada um de nós representa a verdade absoluta. Estamos cegos por arrogância e egoísmo.

Tentar entender, reconhecer erros e aprender tornaram-se sinônimo de fraqueza. De algum modo, algum dia, descobriremos a gravidade de nossos erros. Ignoramos por muito tempo os pedidos de socorro, seja das pessoas pisoteadas ou da natureza incinerada diante de nossos olhos. Nós ainda vamos pagar por tudo isso.

Algumas obras conseguem nos tocar de uma maneira indescritível. Alguns jogos, filmes, livros alcançam coisas que nem sabíamos que tínhamos dentro de nós. Outras vezes, chegam como uma grande interrogação em certezas. Exclamações em dúvidas que nos perturbaram por toda a vida. E este é o meu caso. O porquê de A Chegada ser sobre o nosso fim.

A morte sempre me apavorou. Como agnóstico, o conceito de paraíso ou a ideia de qualquer forma de vida após a morte nunca me soaram muito reconfortantes. Portanto, o que me restará quando eu der meu último suspiro é o eterno vazio. O nada. O ser humano teme muito o desconhecido. Reconhecer padrões e reproduzi-los à exaustão é o que fazemos de melhor, a partir do momento que algo não se encaixa nesse padrão, nosso cérebro pira.

Conviver com a ideia de que um dia tudo isso ficará para trás e que não levaremos absolutamente nada conosco me corroía por dentro. Para que batalhar tanto, se esforçar, tentar ser uma pessoa melhor, se isso tudo será em vão? Essa angústia me impossibilitava de aproveitar os pequenos detalhes da vida. Os pequenos detalhes que fazem tudo valer a pena.

De forma bem generalista e superficial, o modelo de vida que é imposto a nós é baseado em objetivos. Estudamos para termos empregos, temos empregos para termos dinheiro, temos dinheiro para que as próximas gerações possam estudar. Quando chegada a época de, para aqueles que têm o privilégio para tal, escolher uma faculdade, a grande questão é: em qual posição você quer ficar para poder alcançar a sua linha de chegada mais rápido?

Disseram-me que na injusta corrida que é a vida, a única coisa que importa é vencer. A única coisa que importa é “chegar lá”. É morrer sabendo que você tem dinheiro o suficiente para que as pessoas que você ama estejam em uma boa situação. E assim, continua o ciclo. Estamos tão presos ao tempo. À sua ordem. Somos obcecados por começos e fins.

Uma hora ou outra, tudo chega ao seu fim. Ao ficar preso em conjecturas sobre como seria a morte e o que aconteceria com as pessoas ao redor após a minha partida, acabei esquecendo que a vida não é uma corrida. Talvez ela esteja mais para uma viagem. E, se ficarmos presos a como será o final, podemos acabar perdendo o que ela tem de melhor. Não temos nenhum objetivo final, não temos que correr. Sim, dói que um dia tudo isso irá acabar. Às vezes ainda fico angustiado ao pensar sobre o fim. Mas é isso que faz a jornada tão especial.

Nem tudo é sobre a chegada.

A cultura pop pode nos proporcionar momentos enriquecedores se a olharmos com carinho. É assim que encaro games, cinema e todas as outras mídias que nos cercam. Tratando arte como arte, sem nunca perder o bom humor.