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Crítica Sem Spoilers | Hellboy – De nada boas adaptações o inferno tá cheio

Depois de uma guerra monumental entre DC e Marvel na Era de Prata e logo após o megaevento Crise nas Infinitas Terras, os leitores de quadrinhos estavam prontos pra vislumbrar histórias mais maduras, sombrias e de teor psicológico. Justamente neste momento de mudança da nona arte, em 1986, a Dark Horse Comics surgiu como uma opção de editora independente. Além de trazer frescor a indústria de quadrinhos, a Dark Horse possibilitou novas opções não só para os leitores, mas para os quadrinistas – que agora tinham cada vez mais selos para lançar seus projetos. Na década de 90, enquanto DC, Marvel e a recém criada Image enchiam suas páginas de músculos e mudanças absurdas no status quo dos personagens, a Dark Horse trazia títulos mais criativos e que, apesar de não ser uma grande ameaça ao mercado das grandes editoras, criavam legiões de fãs – entre eles, o demônio Hellboy.
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Em meio a nova era de super-heróis nas telas de cinema, seria natural prever que Hellboy e outros títulos entrariam na mira de estúdios e produtores. Afinal, além de aproveitar o fenômeno que se tornaram as adaptações de quadrinhos, estes personagens também serviriam como uma nova opção para aqueles que estão cansados dos tons e cores dos universos DC e Marvel. Isso por si só já justificaria um reboot de Hellboy, que teve seu último filme lançado em 2008 – mesmo ano em que foram lançados Homem de Ferro e Batman: O Cavaleiro das Trevas, longas que mudaram a visão de Hollywood sobre o gênero – e que, apesar de seu sucesso de público e crítica, não foram adaptações tão interessantes aos olhos de boa parte dos fãs do personagem.
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Uma década depois, Hellboy é invocado novamente nas telas de cinema, desta vez visando traduzir o storytelling e visual únicos de Mike Minogla para a linguagem cinematográfica. No longa, acompanhamos a rotina de Hellboy (David Harbour) em suas missões paranormais no BPRD, até que a Bruxa de Sangue Nimue (Milla Jovovich) volta à ativa depois de séculos de aprisionamento. Esta é a premissa inicial de Hellboy que, ao passar do tempo de projeção, acaba se perdendo e se tornando caótico demais para o espectador. Apesar da boa vontade, o longa acaba desperdiçando a oportunidade de iniciar uma nova franquia e/ou de simplesmente contar uma boa história e divertir o público.
É necessário fazer justiça ao filme: Hellboy realmente possui muito de seu material de origem. É visível a sua tentativa em adaptar a narrativa de Mignola, que é de fato muito complexa, frenética e repleta de referências mitológicas, passagens de tempo e reviravoltas. Nos quadrinhos de Hellboy, por mais que a história percorra diversos pontos, a transição entre eles é orgânica e a conclusão é bem realizada para que o leitor possa compreender a história como um todo. Porém, a direção de Neil Marshall (Abismo do Medo, Centurião) e o roteiro de Andrew Cosby não conseguem dar soluções audiovisuais para a linguagem e universo de Hellboy. Sem o refinamento de Mignola, a narrativa de Hellboy se torna rasa, confusa e incompreensível. Há um péssimo trabalho da montagem, que peca na hora de unir as diferentes cenas e faz com que o filme soe como um amontoado de sequências desconexas, como episódios de uma série procedural assistidos em sequência. Também não realiza as melhores escolhas para favorecer os diálogos e cenas de ação, que acabam sofrendo cortes demais e perdem a fluidez e naturalidade.
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Sem coesão, o espectador poderia acabar se prendendo a outros aspectos do filme para aproveitá-lo. Infelizmente, não há muito que Hellboy possa oferecer. Visualmente, o longa não funciona. As sequências de ação não são nada inspiradas. O gore presente no filme é inverossímil. A fotografia busca o contraste entre cores fortes e o sombrio, mas parece estar em dessintonia com designer de produção, figurinos, cenários e maquiagem. Assim, acaba ressaltando a artificialidade destes elementos e tirando suas personalidades próprias. Durante a maior parte do tempo, o uso do verde e do azul não se justifica e deixa tudo visualmente apático. Os efeitos visuais são medianos, e em alguns momentos é notável que o orçamento não foi o suficiente para realizar algumas ideias. O som do longa também não é interessante. A trilha sonora utiliza músicas que, apesar de divertidas, não comunicam nada. O designer de som também não explora possibilidades, e só procura aproveitar sons estrondosos como explosões e tiros.
Mesmo com tudo isso, é interessante se atentar ao trabalho de maquiagem e efeitos práticos de Hellboy. Apesar da auto-sabotagem, as maquiagens são muito interessantes, assim como o visual das criaturas – em especial, Baba Yaga. Já a maquiagem utilizada em David Harbour entrega um visual distante da interpretação de Ron Perllman – o que é positivo – e explora um aspecto mais bruto e sombrio do personagem, mas não dá mobilidade o suficiente para o ator se expressar. A boca, em especial, fica limitada a poucos movimentos e isso influencia diretamente na atuação de Harbour.
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As atuações do longa, em sua maioria, entregam o que é necessário dentro das possibilidades que o roteiro lhes oferece. David Harbour experimenta novas vozes e nuances ao personagem, mas é prejudicado por diálogos fracos e expositivos, em sua maioria do tempo. Ian McShane traz seu característico charme e sua voz imponente para o Professor Broom, mas o personagem é desinteressante e não se consolida como uma ponte emocional e de humanidade de Hellboy. Sasha Lane, como Alice, e Daniel Dae Kim, como Daimio, também realizam bem suas trajetórias como sidekicks, mas o desenvolvimento dos personagens é raso e não há química na equipe montada. Milla Jovovich está expansiva demais, sem sutilezas em sua construção, e acaba caindo na canastrice. O trabalho mais interessante é o da dupla Troy James e Emma Tate, que dão vida à Baba Yaga. Troy, um contorcionista, possui um trabalho de corpo interessante (e tenebroso) para a personagem e Emma lhe dá a característica voz de bruxa má. Uma grata surpresa no meio do longa que certamente dará uma sobrevida ao espectador para que este possa aguentar até os minutos finais.
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Enfim…
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Hellboy é um longa que até tenta ser uma adaptação da interessantíssima escrita de Mike Mignola, mas que acaba sendo um desperdício. Um filme caótico, sem inspiração, que não consegue transpor a narrativa do quadrinista para a linguagem cinematográfica e que se perde no meio do caminho. Apesar do bom trabalho de maquiagem e efeitos práticos, e de um olhar criativo do departamento de criação, nada em Hellboy é suficientemente interessante para que o espectador saia realmente entretido da sala de cinema. Para muitos pode ser possível se divertir com o filme, e suas falhas podem até elevá-lo a um status de cult no futuro… Quem sabe? Mas, no presente, o filme perde a oportunidade de oferecer tons novos aos filmes adaptados de quadrinhos. No fim, o único ponto positivo de Hellboy é nos propiciar todo tipo de trocadilho com sua ruindade e o inferno. Um filme dos diabos. Uma adaptação pra mandar pro inferno.