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Crítica: John Wick 3: Parabellum

Em uma cena de John Wick 3, a jornada do personagem de Keanu Reeves é comparada um balé russo. Essa cena é talvez a mais elucidante sobre a proposta dessa franquia. Tal como a mais tradicional peça de balé, cada sequencia de luta mirabolante de John Wick é fruto de meses de ensaios rigorosos de Keanu Reeves e todo o elenco e equipe técnica de Chad Stahelski indo aos limites de suas capacidades físicas para atingir a perfeição estética. Toda quadro desse filme parece ser uma constatação, uma mensagem de toda a equipe falando “ISSO AQUI É ARTE”. Pela terceira vez seguida, Reeves e a equipe de Stahelski agraciam o mundo com a nata da nata da violência cinematográfica que Hollywood já produziu.

Após os eventos de John Wick: Um Novo Dia Para Matar, em que o personagem se encontra perseguido pela organização criminosa para qual dedicou a quase toda a vida e lutou para conseguir fugir após violar um espaço neutro. Com sua cabeça a premio e na mira dos perigosos assassinos do mundo, John Wick vive uma perseguição desesperada atrás da mínima chance de garantir sua sobrevivência. Nessa nova jornada, ele é forçado a cobrar favores de aliados relutantes, além de lidar com o exército infindável da misteriosa “Alta Cúpula” que rege todo o submundo desse universo.

A atração principal, as lutas meticulosamente coreografadas por Reeves e um batalhão de atores-dublês são uma fonte inesgotável de criatividade. Uma luta que se passa no interior de uma loja de armas, em que os participantes usam o estoque da loja como recursos quase infinitos, lutas à moto, lutas a cavalo, lutas usando cachorros treinados (Nenhum animal é ferido nessa história). Tudo isso fazendo o melhor uso de armas brancas, armas de fogo e a boa e velha porrada. Tudo isso captado de forma maestral pela fotografia de de Dan Lautsen. Nem tudo é perfeito, pois alguns truques são usados à exaustão (Headshots perdem a graça rápido) e algumas lutas se estendem mais do que deveriam. Por muito pouco, o saldo de lutas desse filme fica aquém do filme anterior.

Mas o que eleva toda essa luta é como o filme mantém a tensão durante toda a história. John Wick está totalmente desamparado, e toda pequena vitória que ele conquista é só um triunfo temporário até aparecer a próxima leva de assassinos. O filme inteiro é uma fuga, não só literal, mas também metafórica: John Wick está constantemente fugindo do passado.

O filme inteiro força John Wick a lidar com as consequências de todas as ações que o trouxeram até agora. Mais do que os filmes anteriores, vemos como escolhas que ele tomou para abandonar sua vida de assassino voltam para cobrar seu preço. E agora que a trama do mundo John Wick evoluiu para muito além de “Vingar a morte do cachorro” o filme faz questão de abordar porque devemos torcer por um assassino dentre um mundo inteiro de pessoas com tanta culpa quanto ele. O filme explora muito mais intimamente o personagem de John Wick, desde as condições que o levaram a se tornar o “Baba Yaga” até o que o motiva ele a seguir em frente, com Reeves demonstrando muito mais fragilidade por baixo da pose de herói de ação. Mesmo sendo um espetáculo de ação em primeiro lugar, o filme se permite sofisticar quando a história exige.

Como é de costume, a frieza e intensidade do Reeves é equilibrada com um elenco secundário de atores de gênero se deliciando nos personagens excêntricos e caricatos. Com a volta dos refinadíssimos Winston (Ian McShane) e Charon (Lance Reddick), o espalhafatoso Rei do Bowery (Laurence Fishburne) e o ingresso de Asia Kate Dillon, a “Juiza” a mando da Alta Cúpula, Anjelica Houston como a matriarca da máfia russa e Halle Berry como uma antiga parceira de Wick. Mas o grande destaque do filme vai para Zero, um sushiman que comanda um exército de ninjas interpretado por Marc Dascascos, que quer um autografo de John Wick tanto quanto quer matá-lo. A admiração de Dascacos por Reeves é palpável nas interações dos dois, dando a todas as cenas que interagem uma energia contagiante.

Mas o que unifica todos esses elementos é o trabalho de ambientação do filme. Em todos os John Wicks, a cidade de Nova Iorque é essencial para a construção de mundo, e aqui não é diferente. Com uma fotografia primorosa dando um toque surreal ao ambiente, a cidade parece um lugar misterioso, onde um assassino pode espreitar a qualquer beco, ninjas somem em meio à multidão e até os pontos familiares escondem segredos obscuros. O fato de que muito se fala mas pouco se mostra das entidades que regem o mundo de John Wick ajuda a criar uma mística que permeia todo o filme.

O diretor Chad Stahelski disse que uma das metas da franquia John Wick é mandar um “F***-se” para Hollywood. Num ambiente onde cada vez mais os blockbusters terceirizam seus momentos mais bombásticos para produtoras de efeitos especiais, John Wick é fruto unicamente da visão artística de um diretor e a disposição de seu astro principal a se dedicar totalmente para realizar essa visão. Esse filme é mais uma amostra do potencial que há em dar liberdade aos artistas para criar algo fora do padrão. Tem muito mais amor em uma cena de John Wick do que em franquias inteiras, e só temos a ganhar em incentivar projetos como esse.