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Crítica | Jumanji: Próxima Fase – Diversão e ação dignos de uma segunda fase

 

“Na selva você deve esperar, até um 5 ou um 8 alguém tirar”. Foi assim, lendo o resultado da sua primeira rodada de dados, que Alan Parrish foi sugado para dentro do mundo de Jumanji, nos levando junto em uma aventura fantasiosa e sombria com toques de suspense, comédia, romance e drama. Animais selvagens e/ou fantásticos, desastres naturais e plantas venenosas eram invocados até o mundo real por um jogo de tabuleiro em um filme que, apesar de obter recepção morna em crítica especializada e bilheteria, acabou por marcar a infância das crianças da década de 90 e se tornou um clássico da Sessão da Tarde.

Anos depois – e surfando na onda nostálgica – Jake Kasdan (Professora Sem Classe, Sex Tape) voltou a Jumanji com a missão de criar uma sequência para o filme e apresentar este universo para toda uma nova geração. E, para isso, optou por uma atualização. Trocando o boardgame por um videogame, Jumanji- Bem-Vindo á Selva conta história de quatro jovens que, após ficarem presos na detenção, acabam encontrando o jogo amaldiçoado e indo parar dentro da selva, lar das criaturas quase mitológicas. E, por agora estarem dentro de um mundo virtual, acabam trocando de corpos com avatares que são o oposto do que são na vida real, o que os obriga a usarem suas novas e antigas habilidades e a trabalharem em equipe para retornar ao mundo normal.

Jake Kasdan e o roteirista principal Chris McKenna (Spiderman: Homecomming, LEGO Batman, Community) utilizaram de sua experiência na comédia para fazer de Jumanji – Bem-Vindo à Selva um filme engraçado, divertido e que entretém, mas… que não é Jumanji. Ao abandonar a ideia inicial do livro de Chris Van Allsburg que deu origem ao filme de 95 abandonou-se também toda ludicidade e mágica que vem com ela, abrindo mão de possibilidades de roteiro muito mais interessantes para fazer um filme mais raso, que privilegia a diversão descompromissada. Um filme que traz o nome Jumanji como estratégia de mercado e que perde a oportunidade de ser uma premissa completamente nova. O sucesso comercial, de público e crítica, porém, foi alcançado.

Uma sequência para Jumanji – Bem-Vindo à Selva seria obviamente irresistível… e Jake Kasdan assume novamente direção e roteiro em Jumanji: Próxima Fase, que de forma competente evolui a construção de universo de seu antecessor e consolida o caminho para uma franquia. No novo longa, acompanhamos Spencer (Alex Wolff) que, após o término do Ensino Médio, enfrenta a realidade de uma vida adulta que não corresponde suas expectativas. Motivado a entrar novamente no mundo de Jumanji, Spencer conserta o videogame e inicia um novo jogo. Cabe a seus amigos, acompanhados do vô de Spencer (Danny DeVito) e Milo Walker (Danny Glover), resgatarem o rapaz entrando no jogo amaldiçoado – e, desta vez, também bugado.

Jumanji: Próxima Fase retoma o tema de seu antecessor, a aceitação, mas desta vez foca no amadurecimento – no crescimento. Spencer e seu vô iniciam o jogo destinados a enfrentar o medo de envelhecer, o que dá interessantes camadas emocionais ao filme. O Jumanji original tinha grande foco na construção do drama e da moral, que traziam carga emocional para a trama. Estes elementos também foram levados para Jumanji: Bem-Vindo à Selva, embora bem menos. Já em Próxima Fase foca-se em reduzir mais da ação e comédia para explorar mais as possibilidades dramáticas da história, assim como o romance, o que faz com que o novo longa traga mais do espírito de Jumanji, sem precisar utilizar o fan service ou colocar referências quase didáticas para conectar as diferentes propostas (como acontece em Bem-Vindo à Selva). Próxima Fase é um filme que entende muito bem toda a essência de Jumanji, voltando para as origens mas sem deixar de assumir o novo conceito, consolidando a personalidade dos novos longas e abrindo possibilidades para o futuro.

Bem-Vindo à Selva é a típica história de troca de corpos, e o novo longa não é diferente. Aproveitando que personagens e avatares já foram apresentados anteriormente, o roteiro foca em desenvolver a dinâmica, criando novas combinações e jogos na relação entre os personagens. Isto dá a possibilidade de repetir piadas e situações que funcionaram, assim como apresentar coisas novas ao espectador. O roteiro também aproveita a inclusão de novos personagens na trama para guiar o público que não tenha assistido aos filmes anteriores. Alguns poucos diálogos expositivos são necessários para situar o espectador, dando o necessário para que ele entenda e foque no que é realmente o objetivo do filme: as cenas de comédia e as sequências de ação.

As piadas do longa, novamente, cumprem sua função. São rápidas e exploram as situações dos personagens. Já as cenas de ação, em boa parte, pecam pelo excesso de cortes – principalmente as cenas de luta corporal. No entanto, isto não incomodará boa parte do público, que estará mais propenso a dar foco a construção visual destas cenas. O CGI do longa, aliás, é competente e bem superior ao mostrado em Bem-vindo à Selva.

Aproveitando da estrutura de jogos de videogame, o filme consegue construir um universo facilmente reconhecível para aqueles mais próximos desta mídia. É possível afirmar que tanto Bem-Vindo á Selva como Próxima Fase são alguns dos melhores filmes feitos sobre um jogo de videogame mesmo não sendo um jogo de videogame. O filme utiliza NPCs, cutscenes, lógica de RPG e survival games, puzzles, além de uma “artificialidade natural” proposital na construção de suas paisagens. Próxima Fase peca, porém, em não se aprofundar e verticalizar nas possibilidades que os jogos de videogame oferecem. Se em Bem-Vindo à Selva o roteiro se vê obrigado a dar explicações e guiar os possíveis espectadores que não estão familiarizados com games, Próxima Fase perde a chance de aproveitar a construção de seu anterior e acrescentar novos elementos – visto que o público do filme seria, massivamente, aqueles que já assistiram ao último longa.

O longa é feito para girar em torno de Dwayne Johnson e Kevin Hart. Desta vez, os atores servem de avatar para Danny DeVito e Danny Glover. Johnson e Hart não realizam um bom trabalho de atuação, isto é, não constroem personagens de forma tão interessante, e sequer procuram emular os movimentos e personalidades dos personagens que “incorporam”. Há um esforço maior de Johnson, mas ambos caem no caricato, sendo somente uma representação superficial do que seria um idoso. A dupla, porém, tem carisma. A proposta também acaba por fazer Kevin Hart deixar de lado alguns vícios de atuação que fazem com que seus personagens se pareçam todos iguais – isto é, se pareçam com ele mesmo. Importante salientar que a escolha de centralizar o filme em torno de Johnson e Hart acaba por tirar espaço de outros personagens, que nesta sequência não tem trajetórias nem objetivos dentro da trama.

Por outro lado, para equilibrar, Karen Gillian e Jack Black completam o quarteto entregando boas construções de personagem. São atuações mais refinadas, que buscam construir atenciosamente os gestos, a voz, o olhar. Evidente que este não é um filme de estudo de personagem, mas uma boa construção, que busca encontrar a verdade de cada personagem, impactará diretamente na efetividade da comédia. Das adições ao elenco, temos Awkwafina, que também entrega um bom trabalho de atuação – por mais que acabe caindo no estereótipo em certos momentos. Já Danny DeVitto e Danny Glover… Apesar do pouco tempo de tela, dão tudo que é necessário para o desenvolvimento de seus personagens ao longo do filme, sendo responsáveis por boa parte da carga dramática e empática que o filme sustentará.

Enfim…

Jumanji: Próxima Fase é um filme divertido, que entretém seu espectador e dá continuidade ao novo universo de Jumanji. Diferente de seu antecessor, Jumanji: Próxima Fase consegue reunir a nova proposta junto do espírito de seu material de origem, abrindo mais espaço para o drama e apresentando uma trama mais madura. É um longa que consolida a personalidade do novo olhar sobre Jumanji, encaminhando-se para uma franquia.

Com os carismáticos Dwayne Johnson e Kevin Hart liderando o elenco, o longa brinca com lógicas e regras estipuladas em sua primeira parte, trazendo frescor e novidade aos espectadores. Apesar de apresentar atuações frágeis, Karen Gillian e Jack Black trazem construções interessantes de personagem e Danny DeVitto e Danny Glover sustentam boa parte da carga dramática necessária. Jumanji: Próxima Fase é um grande filme sobre um jogo de videogame, mesmo não adaptando nenhum jogo real – e cumpre sua proposta de divertir.