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Crítica | 1917 – O cinema nas trincheiras, ao teu lado

– Quem estará nas trincheiras ao teu lado?
– E isso importa?
– Mais do que a própria guerra.

A frase acima é normalmente atribuída como adaptação livre de um trecho de Adeus às Armas, de Ernest Hemingway – mesmo que faltem fontes para tal afirmação. O livro em questão é um dos mais importantes na bibliografia de Hemingway, um dos responsáveis por solidificar sua personalidade como autor e que tem forte caráter autobiográfico. Adeus às Armas nasceu justamente da experiência do escritor na Primeira Guerra Mundial, onde serviu como motorista de ambulância e presenciou momentos intensos – como ser atingido por destroços de uma trincheira e se apaixonar pela enfermeira que cuidou de seus ferimentos.

Em Adeus às Armas, Hemingway aproveita para colocar suas reflexões sobre a guerra como alguém de dentro, que vivenciou este evento de magnitude, até então, nunca visto na Idade Contemporânea. Afinal, é importante lembrar que os títulos “Guerra Mundial” e “Grande Guerra” não foram dados à toa. Adeus às Armas é uma experiência imersiva e, até hoje, é usado como referência para entender a vida e sentimentos dos soldados no campo de batalha. Com um livro inteiro de pensamentos sobre o conflito, por que então iniciar um texto justamente com uma frase que não se sabe se é, de fato, do autor? Simples: porque a frase é muito boa. E ela se torna ainda mais interessante quando a olhamos pensando na realidade da Primeira Guerra Mundial.

Colocando-a no contexto destes soldados, aqueles que estavam ao lado na trincheira eram, de fato, mais importantes que a guerra. Tendo ocorrido em um importante momento de transição do século XIX para o XX, a Primeira Guerra Mundial era moderna o suficiente para explorar tecnologias de guerra inéditas, mas ainda era muito dependente de soldados. Foi um conflito marcado pelas trincheiras – fossos que servem para proteção e locomoção no campo de batalha. Os únicos aparatos que podiam causar ataques significativos aos soldados entrincheirados eram os aviões (que se enfrentavam pelos céus, impedindo qualquer tipo de ofensiva inimiga) e a artilharia, que perdeu parte de sua efetividade quando as trincheiras começaram a ser feitas em zigue-zague. Nenhum dos lados tinha força suficiente para vencer as trincheiras inimigas. Por isso, durante anos, soldados de ambos os lados ficaram esperando, entocados, oportunidades para eliminar o exército inimigo aos poucos.

Dos 20 milhões de soldados mortos na Primeira Guerra, estima-se que 35% morreram nesse labirinto vertiginoso que eram as trincheiras. E o fogo inimigo não era o único perigo. A fome, a sede e as doenças causadas por ratos, piolhos e cadáveres em decomposição tornavam a vida insustentável. A pressão e o stress também levaram muitos soldados ao suicídio – alguns simplesmente saíam das trincheiras para serem fuzilados.

Portanto, é de se imaginar que, para muitos, as trincheiras se tornaram uma vida à parte. Afinal, estes soldados viveram as emoções dilatadas da sobrevivência no fronte para vencer não só nações inimigas e o próprio limite humano, mas o tempo em si. E se agarrando, na maior parte do tempo, aos seus: aos que estavam longe e aos que estavam nas trincheiras, enfrentando os mesmos dilemas diariamente.

E é neste contexto que o diretor Sam Mendes (Beleza Americana, 007: Skyfall) busca nos inserir em 1917. No longa, acompanhamos uma dupla de soldados que, no auge do conflito de trincheiras, precisa atravessar o campo de batalha para impedir que um pelotão realize um ataque – e caia em uma armadilha do exército inimigo. A grande potência de 1917 está em sua narrativa. Sam Mendes e o diretor de fotografia Roger Deakins (Fargo, Onde os Fracos Não Tem Vez, Blade Runner 2049) buscam realizar o filme em um grande e único falso plano-sequência, o que coloca o espectador diretamente na vivência de um soldado na Primeira Guerra Mundial. Tecnicamente impecável, o longa acompanha a jornada destes personagens e convida o público a expandir a sensorialidade, mimetizando a tensão, o stress e a sensação de tempo dilatado do campo de batalha.

O roteiro, assinado por Mendes e Krysty Wilson-Cairns (Penny Dreadful) é simples, mas eficiente. Com objetivos bem claros e com uma história que pode ser facilmente assimilada pelo público, 1917 foca em exigir a atenção do espectador para sua fotografia e técnica (que é o que, de fato, prioriza e enxerga como grande potência no projeto). Há o estabelecimento de um conflito principal, que já deixa bem explicado para o espectador qual o ponto de chegada. Junto a este, é incluído um objetivo que torna a questão pessoal aos protagonistas: um conhecido está entre os homens que podem ser enviados para a morte certa. Temos, logo, ferramentas para que esta jornada ganhe também um peso emocional e íntimo. A intimidade se aprofundará mais tarde e se regerá o principal tema do filme, conectando inclusive o primeiro e último frame do longa. Há também um desenvolvimento interessante sobre o protagonismo do filme, que pode acabar redirecionando o olhar do espectador para criar novas camadas e gerar novas interpretações sobre suas discussões. Pode-se pensar que, em determinado momento do filme, ocorre uma transferência do protagonismo. Porém, é importante notar que hão há, de fato, uma troca de protagonistas – o protagonista de 1917 está apontado desde o início, reforçado pela condução do filme.

Sam Mendes e Roger Deakins realizam um grande trabalho conjunto para que 1917 se torne um espetáculo técnico. O longa é uma grande realização cinematográfica. Normalmente, filmes que se colocam na experiência de serem filmados em falsos planos-sequência aproveitam a maioria de suas cenas em espaços fechados para construir sua ilusão de movimento contínuo, acompanhando os personagens ou circulando pelo cenário em si – é uma logística mais controlada, embora ainda muito complexa. Aqui, há a problemática de que há vários diferentes espaços, muitos em locais abertos. É necessário, portanto, um planejamento muito matemático para esquematizar as filmagens e um design de produção competente. Dennis Gassner (Blade Runner 2049, O Show de Truman) constrói grandes complexos, imersivos até na sujeira – com direito ao pó, lama, cinzas e cadáveres de homens e animais – que possibilitam que longos planos sejam gravados, passeando por diferentes ambientes de diferentes dimensões.

A câmera, com isso, tem a liberdade necessária para realizar o que é melhor para cada cena. Há um grande uso de câmera na mão e em steadicams, que permitem com que o cinegrafista esteja sempre próximo da ação e dos atores que conduzem o filme. Esta mobilidade também é usada para realizar movimentos que intuem as situações e sensações dos personagens, como mudar para planos baixos quando estão se arrastando pelo chão, passar por arames farpados quando estão se esgueirando ou realizar rápidos movimentos de reação quando são disparados tiros ou ocorrem explosões. Há também muitos travellings realizados com a ajuda de dollys, carros e gruas, usados em sua maioria para captar planos mais amplos e sequências de ação (incluindo uma cena-chave do filme, que acompanha um dos personagens atravessando um campo de batalha no sentido contrário do avanço do exército). A câmera busca construir planos longos por maior tempo possível, encerrando-se rapidamente com passagens rápidas pelo cenário, por vezes com um discreto zoom em objetos (o que é de praxe para manter a ilusão do plano-sequência), mas também existem ligações entre diferentes cenas realizadas com a ajuda de efeitos digitais – estes quase impossíveis de serem detectados, a menos que o espectador esteja procurando por momentos onde os cortes poderiam ter acontecido.

Também é necessário, para um projeto ousado como este, coordenar a equipe de efeitos especiais (os diversos tiros e explosões presentes no longa) e o elenco (os soldados e figurantes que precisam entrar no momento exato para ter sua ação registrada na câmera). Normalmente um filme de guerra já exige uma condução precisa – e em 1917, por sua proposta, esta necessidade é potencializada. Por isto Mendes entra como grande favorito nas premiações – 1917 traz um dos trabalhos de direção mais complexos e matemáticos do ano.

O som é um dos aspectos técnicos mais importantes em um filme de guerra, e em 1917 ele não recebeu menor atenção. A edição de som é extremamente competente ao captar os sons, assim como os diálogos. A mixagem dá a naturalidade necessária e utiliza muito bem a disposição dos efeitos sonoros entre lado direito e esquerdo, jogando com a percepção do espectador. A trilha sonora de Thomas Newman (Beleza Americana, Wall-E) impulsiona os sentimentos necessários, que vão da tensão a contemplação. Newman se sobressai quando cria músicas que levam o espectador a apreciar o heroísmo e a bravura, conduzindo mais fortemente o sentimento do espectador – o que pode nos levar a ter outras interpretações, que comentarei parágrafos á frente.

Do elenco, os grandes destaques são Dean-Charles Chapman e George MacKay. Conduzir um longa dentro da proposta do falso plano-sequência exige muito da atuação – e a dupla não faz feio. No entanto, MacKay se sobressai a seu colega de cena. O ator constrói muito bem a gama de emoções de seu personagem, e por vezes transita entre vários estados diferentes para nos dar a dimensão do que é esta experiência. MacKay consegue nos mostrar o limite físico, psicológico e emocional de Schofield, o que torna ainda mais crível todas as ações e decisões do personagem.

Temos participações pontuais de personagens que sempre ajudam a levar a história adiante. Se em questão de roteiro este elenco de apoio tem sua função bem estabelecida, o mesmo não se pode dizer sobre como estes se desenvolvem no projeto. Existe uma necessidade muito grande de que estes personagens sirvam como cameos, participações especiais, inserindo atores mais conhecidos do grande público. A construção das cenas, em si, é feita para que o público se surpreenda ao ver um rosto conhecido durante o longa – estes sempre aparecem escondidos, no escuro, de costas ou fora do quadro, e depois são revelados ao espectador. A proposta é fútil, não colabora com o próprio conceito do filme – afinal, ela só serve para nos tirar da imersão, construída com tanto esforço por todos os aspectos técnicos de 1917.

Por último, uma importante reflexão. François Truffaut, um dos diretores mais importantes da história do cinema, disse certa vez em uma entrevista para o Chicago Tribune. “Eu acho que certo tipo de violência é bem ambíguo em alguns filmes. Por exemplo, alguns filmes alegam ser anti-guerra, mas eu não acho que eu realmente tenha visto um filme anti-guerra. Todo filme sobre guerra acaba sendo pró-guerra“. Truffaut levanta um ponto interessante. Claro, não há limitações para a arte. Tudo é possível na criação de uma obra – não há o “sim” e o “não” definitivos. Há vários filmes de guerra, inclusive, que podem ser usados como contraponto a esta declaração. O que Truffaut expõe aqui é que há uma problemática no filme de guerra que exige um cuidado muito grande para que este não ofereça esta temática como puro e simples entretenimento – e se coloque de forma a questionar a guerra, de forma crítica.

Pensando nisto, podemos afirmar que 1917 é um filme ambíguo. Existem diversos elementos que desejam imprimir ao espectador o repúdio pela guerra. 1917 quer, no fim de tudo, valorizar os humanos que, fatalmente, foram levados a guerra – mas não elevar a guerra em si. A lealdade e a coragem são homenageadas no longa – não a coragem e a lealdade dos soldados pela causa, mas a coragem e a lealdade de humanos por humanos. Porém, o filme também traz elementos que possam corroborar para que seja visto como uma celebração ao combate. Não pode existir o herói de guerra sem o antagonismo. O longa traz um maniqueísmo evidente, que desumaniza os alemães. Não existem tentativas mais agressivas para trazer a reflexão sobre o conflito – o horror da guerra, por vezes, poderia ser mais evidenciado. A trilha, que rompe em momentos de heroísmo, acaba por conduzir o espectador a simpatia e até aprovação. Logo, por mais que o filme traga subtextos que podem levar o público a valorizar o homem acima do conflito, também possui elementos que acabam por trazer a guerra em primeiro plano. No fim, caberá a cada espectador decidir por qual prisma assistirá 1917 – e quais mensagens absorverá do longa. Porém, em tempos onde o óbvio preciso ser sempre reafirmado, talvez fosse necessário deixar mais explícito o repúdio pela guerra.

Enfim…

1917 é uma experiência cinematográfica profundamente imersiva, uma jornada ao vertiginoso labirinto que eram as trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Sam Mendes e Roger Deakins encontram no falso plano-sequência uma maneira efetiva de colocar o espectador no centro da ação, potencializando sua sensorialidade e sua empatia.

O roteiro acerta ao contar uma história simples, com objetivos claramente estabelecidos, que possibilita ao público focar-se no visual do filme. Tecnicamente impecável, todos os elementos de 1917 se unem em prol da ambientação. O design de produção, a fotografia e a edição de som são os grandes destaques. George MacKay conduz o público com competência, construindo uma gama de tensão física e psicológica e entregando um personagem emocionalmente crível.

No fim, caberá ao espectador decidir se 1917, de fato, leva o público a criticar a guerra. Porém, um fato é inegável: 1917 é uma experiência. Tal qual Adeus às Armas, de Hemmingway, 1917 é um convite. É memória e experiência, sintetizados em forma de arte para futuras gerações. Uma visita ao dia a dia do fronte, um olhar humanizado sobre os soldados que lutaram em um conflito e que, hoje, são vistos como números e estatísticas pela história.

A guerra é, de fato, um dos ápices do horror humano. E, ainda assim, sempre tão próxima, tão iminente. Toda experiência que nos permite enxergar além de nossa própria vida, respirar sob diferentes perspectivas, é, no mínimo, reflexiva. 1917 acaba por celebrar as qualidades mais nobres dos homens acima de seus defeitos. Um war movie, sim, mas uma história sobre lealdade e humanidade – valores que constantemente precisamos lembrar que são mais importantes do que a guerra.