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Critica: Kingdom Hearts III – Re:Mind é um DLC para super fãs e ninguém mais

Essa crítica contêm spoilers para o jogo base de Kingdom Hearts III.

O Kingdom Hearts III é uma vítima das circunstâncias. Ao jogar o jogo no ano passado, se tornou perceptível que a aguardada conclusão da “Saga Xehanort” estava sendo esmagada pelo peso da bagagem que, aos trancos e barrancos, a franquia Kingdom Hearts veio acumulando através de inúmeros spin-offs lançados nos 13 anos desde o último jogo numerado para consoles da franquia. Essa pressão de dar um final para quase 17 anos de histórias, somado ao processo conturbado de desenvolvimento do título, acabou resultando em uma história com ritmo desigual, com longos trechos em que a trama não avança, concluindo em um final extremamente corrido e tão cheio de clímaxes e reviravoltas em sequência que o jogador não tinha tempo para processar a informação. Isso sem contar a questão da jogabilidade, já que a equipe de desenvolvedores só tinha experiência com jogos para plataformas móveis, o jogo acabou carecendo de conteúdo digno de um jogo para consoles, tal como um pós jogo significativo, como os tradicionais torneios e superchefões desafiadores, como já era tradição nos jogos principais anteriores. Para muitos, o jogo estava incompleto.

Nessa panorama, quem já sabe como a franquia Kingdom Hearts funciaona já está acostumado a esperar uma versão “Final Mix”, relançamento com conteúdos extras, que é tradição desde o primeiro jogo da série. O Re:Mind é o equivalente do Final Mix na era do DLC baixável. As novidades que ele proprociona são uma tentativa de se a equipe teve muita dificuldade em criar o primeiro jogo de Kingdom Hearts para a geração atual, não é surpresa que eles também tropeçaram na primeira expansão.

O conteúdo do DLC é dividido em 3 diferentes capitulos (cada um exige um espaço de armazenamento diferente): Re:Mind, Limit Cut e Secret Episode, cada uma delas tendo com uma objetivo diferente.

O cenário Re:Mind tem como meta preencher as lacunas deixadas na história do jogo original devido ao ritmo desigual em que a trama avançava. Após alguns flashbacks, a história começa imediatamente após a batalha final. Sora vai em busca de resgatar sua amiga Kairi após sua morte nas mãos do vilão Xehanort. Para fazer isso, ele precisa levar seu coração de volta no tempo para o início da batalha final e achar uma forma de salvá-la, revivendo as horas finais do jogo sob outra perspectiva. Cenas inteiras chegam a ser reformuladas e expandidas, e detalhes da trama que ficaram apenas implícitas ficam muito mais claras. Esse modo também permite controlar outros personagens como Riku, RoxasAqua e finalmente a Kairi em batalhas específicas. O problema é que nenhuma dessas adições é suficiente para afastar a frustração de ter que jogar as ultimas 6 horas finais (E todos os mais de 13 chefões) de novo, e não como uma adição ao jogo base, como se fazia em jogos passas, mas como um capítulo “novo” composto por 80% de conteúdo reciclado. E nem todas as novidades são boas. Ao passar muito tempo com os novos personagens jogáveis, fica evidente que eles são muito mais limitados em jogabilidade em relação ao Sora. Algumas revelações novas de história causam mais confusão do que respostas, algumas simplesmente não fazem sentido, e outras chegam em um nivel de incoerência que eu achava que nem essa série era capaz de atingir. Se você tinha esperanças de finalmente ver a Kairi brilhar, abaixe suas expectativas. Mesmo estando na arte principal deste DLC, a contribuição dela na trama é mínima, ela tem 10 linhas de diálogo no máximo e jogar com ela é divertido até o momento em que você percebe que ela é extremamente mal equipada para vencer a (Única) luta dela e é mais fácil mudar pro Sora. O capítulo Re:Mind tinha o potencial para dar à história de Kingdom Hearts III o que mais faltava, mas seja por falta de recursos, seja pelas limitações do próprio jogo base, a rota que os desenvolvedores escolheram foi a mais mal implementada possível, ofuscando as adições que os jogadores pediram com um uma quantidade desproporcional de frustrações desnecessárias.

Agora com a pior parte terminada, chegamos na parte boa do DLC. O Limit Cut tem como principal atrativo dar um desafio de combate digno dos clássicos superchefões de Kingdom Hearts. E o DLC consegue finalmente fazer jus ao que veio antes. Um ano depois do final de Kigndom Hearts III e após uma cena com o aguardado retorno dos personagens de Final Fantasy, o jogo apresenta o modo “Data Analysis”, em que o jogador controla um recriação digital do Sora e tem que lutar contra recriações digitais dos treze membros da Organização. Quem reclamou do jogo original não era desafiador vai se deliciar com essa fase, pois ocar o “X” não vai funcionar aqui. Todas as batalhas extremamente desafiadoras e cada uma exigindo estratégias diferentes, que o jogador só vai poder superar após muitas e muitas mortes enquanto memoriza os padrões de ataque e experimenta com diversos equipamentos, acessórios, habilidades e magias para descobrir o que funciona contra cada inimigo. É nesse momento que serão mais úteis as habilidades de batalha adicionais da atualização gratuita que saiu junto ao DLC, qur tornam o combo do Sora muito mais rápido e controlado. O Sora digital tem os mesmos stats e itens que o Sora que você usou para vencer o jogo, mas é possível acessar o jogo original para aumentar o seu nível e comprar mais itens e comidas para enfrentar os chefões. A única falha desta parte é que a justificativa para incluir esse modo na história é bem fraca, a narrativa não avança e os personagens de Final Fantasy são totalmente desperdiçados.

E finalmente temos o Secret Episode, que foca no futuro da franquia. Além de uma breve cena introdutória, o esta fase é composta primariamente por uma única batalha de chefão, que essa crítica não vai revelar quem é. É simplesmente a batalha de chefão mais difícil de toda a série Kingdom Hearts até agora. Ela exige domínio total de todas as mecânicas de combate do jogo e não perdoa erros. Você desbloqueia dois finais distintos, um quando você vence e outro quando você perde. Ambos são extremamente instigantes para o que nos aguarda nos próximos jogos da franquia, principalmente para quem já conhece a trajetória do diretor Tetsuya Nomura.

Mas esse foco no futuro é talvez o elemento mais frustrante de todo esse DLC. Todos os três componentes da expansão contém conversas misteriosas, personagens que falam em enigmas e eventos que são deixados em aberto para serem explicados depois, ou pior, coisas que exigem que o jogador jogue o jogo de celular para entender. No exemplo mais absurdo, um personagem está prestes a revelar o seu nome e o áudio simplesmente CORTA. Tudo isso para preparar o terreno para um jogo futuro.

Isso seria menos questionável se o próprio jogo base não sacrificasse a integridade da propria história para poluir a narrativa levantando perguntas que não serão respondidas até sabe-se lá quando. O maior pecado dessa DLC é ela achar que precisa expandir quando na verdade o que o jogo mais precisa é ser COMPLETADO. No caso de desafios de combate, isso é resolvido de forma satisfatória, mas a história, aspecto mais prejudicado no jogo, ainda parece sabotada para favorecer os ganchos para jogos futuros. Isso acaba deixando adições como o Data Greeting, onde você pode posicionar diversos personagens, cenários e adereços para tirar fotos, parecendo falta de prioridade.

No fim das contas o DLC Re:Mind é um produto que só faz sentido pra uma pequena parcela do público. As história que acrescenta é mínima e insatisfatória pra quem saiu frustrado do jogo original, cheia dos mesmos problemas. E o seu maior ponto forte é uma série de batalhas que não serão atrativas para quem já não é um fã experiente dessa franquia. O resto são só promessas de que o próximo jogo pode vir a ser. Com o último conteudo de Kingdom Hearts III lançado, fica claro que a frustração e inacessibilidade são as partes principais da sua identidade.

Com isso fica a pergunta: Essa DLC vale os 90 reais?

Se você é um super fã de Kingdom Hearts e precisa de tudo que sai dessa franquia: Você ja comprou.

Se você quer que respostas para as perguntas que o jogo original não respondeu: Essa expansão causa mais perguntas do que responde e as poucas que responde são mal explicadas. Veja as cenas no Youtube.

Você quer lutar com os super chefões: Se prepar para o Inferno.

Você quer finalmente ver a Kairi lutar: Assiste WWE que você ganha mais.