Artigos Especiais - Cinema

A anarquia de V de Vingança

“Lembrai, lembrai do cinco de novembro” – V

Entre os anos de 1982 e 1983 Alan Moore lançava V de Vingança pela primeira vez. Sem cores e sem um final. Foi só em 1988 que, incentivados pela DC Comics, que ele e David Lloyd conseguiram finalmente terminar o projeto com uma versão agora colorida. Nos anos seguintes a mesma foi republicada nos Estados Unidos pelo selo Vertigo.

V de Vingança se passa em um Reino Unido distópico e pós-apocalíptico no ano de 1997 onde um governo autoritário e autodeclarado fascista tem controle sobre tudo e todos depois de uma guerra nuclear. Além disso, as pessoas não tem mais acesso à cultura, educação e outros direitos básicos, tornando-as leigas, do jeito que eles gostam. É nesse contexto que temos “V”, um personagem misterioso – e com ideais anarquistas – que usa a máscara de Guy Fawkes e trabalha de forma bem teatral. Nesse universo da HQ, o governo, além do abuso de poder, tem um legado de perseguição às minorias – sendo inclusive colocadas em campos de concentração – e em meio a tudo isso somos colocados junto a Evey Hammond, uma jovem de 17 anos que perdeu seus pais na guerra e agora está em sua primeira noite sendo uma prostituta.

Resumo da Obra

Com o passar das páginas descobrimos mais sobre o passado de V e entendemos seus motivos. Alan Moore coloca de forma excelente o que é uma sociedade sem cultura e totalmente dependente de um governo que pensa somente neles mesmo.

Se colocarmos V de Vingança em nosso contexto, talvez não tenhamos um mundo pós- apocalíptico (ainda), mas temos uma guerra política semelhante. V coloca em certo momento da história que por trás de sua máscara não há carne nem sangue, apenas uma ideia. E que ideias são a prova de bala. Se levarmos esse raciocínio em conta apenas, as pessoas estão fazendo tudo muito errado. Aparentemente ninguém conhece as ideias que teoricamente seguem. Apenas aplaudem e babam pessoas que teoricamente seguem essas ideias, mas na prática são todos farinha do mesmo saco.

Tá, mas e a tal Anarquia, onde ela se encaixa em tudo isso? Em determinado ponto da história, V explica a Evey que a “Anarquia ostenta duas faces. A Criadora e a Destruidora. Os destruidores derrubam impérios, fazem telas com os destroços, onde os Criadores erguem mundos melhores.” Ele ainda coloca que os destruidores não tem espaço na visão anárquica dele e em seu plano.

O meu ponto é, a Anarquia de V de Vingança é diferente do que estamos acostumados a ver por aí. O que sempre vemos e o que a grande maioria das pessoas conhece é a vertente Destruidora da anarquia e com ela realmente temos a noção que o movimento é só baderna e destruição. Mas usando a vertente Criadora, o movimento passa a ser de esperança e dá um motivo para lutar pelos seus direitos, mesmo em meio a uma guerra política ou em meio a uma pandemia de um vírus, por exemplo.

Com isso em mente podemos dizer que pelos menos nos últimos tempos, todos os movimentos “anarquistas” que surgiram seguiram o caminho Destruidor e como podemos ver, nada mudou. Após o lançamento do filme, inclusive, tivemos a ascenção do movimento Anonymous. Inicialmente criados como uma comunidade de hackers que buscava “cuidar” da internet, passaram a usar a máscara de Guy Fawkes e a mensagem original mostrada na HQ foi deturpada. Como um “bônus” o grupo parecia flertar muito com a ideia mostrada no filme, corroborando para a ideia de que o anarquismo só busca a destruição e não tem um ponto positivo.

A adaptação para o cinema e suas diferenças

Capa internacional do DVD.

A versão cinematográfica de V de Vingança foi lançado em 2005. Tendo James Mcteigue pela primeira vez na direção e roteiro de Lilly e Lana Wachowski (Matrix, Sense8), o filme, sendo de forma bem direta, tem bons acertos, mas erra bruscamente em coisas que não deveria. O elenco, por exemplo é muito bom. Hugo Weaving como V é excelente e a melhor coisa do longa. Sem mostrar o rosto uma única vez durante as 2 horas de filme, o ator traz o melhor que poderíamos ter do personagem em tela. Temos também Natalie Portman como Evey, que faz um bom trabalho, mas a personagem sofreu mudanças para deixá-la mais “poderosa” desde o início e a mesma acaba perdendo o impacto que ela de fato deveria ter. Ainda temos outros bons personagens coadjuvantes na história, mas sem a mesma importância da HQ.

Outro ponto positivo fica a cargo do visual do filme. Vindo da mesma produção que fez a trilogia Matrix, não é surpresa nenhuma que a parte técnica seja um bom ponto do longa. As cenas de luta e os efeitos especiais são ótimos, além de que V não poderia ter um visual mais fiel. O filme muda um pouco a ordem em que as coisas acontecem em relação a HQ, mas o resultado é quase todo positivo.

A Graphic Novel de Alan Moore, além de ser praticamente um excelente tutorial para você não ficar a mercê de nenhum governo, também consegue demonstrar a opressão contra os negros, homossexuais, pobres e qualquer outra minoria e quão injusto e sem noção isso é. V dá um motivo para cada cidadão desse mundo pós-apocalíptico lutar por seus direitos e cria uma chama de esperança utilizando a ideia Criadora da Anarquia. Já no filme por algum motivo que desconheço, decidiram deixar o lado anarquista de V de lado e simplesmente a história segue sem isso ser mencionado.

Em nenhum momento do filme temos V explicando o Anarquismo, suas particularidades ou muito menos dizendo que o mesmo se enquadra nessa ideia. Para piorar a situação, a última cena do filme a população se transforma em um “exército” de Vs, onde a situação se assemelha muito mais ao comunismo. No fim das contas, o filme se perde em seu próprio conceito, visto que não só as atitudes de V, mas seu logo se assemelham ao logo anarquista.

Eu posso estar errado, mas diria que as Wachowski acabaram tentando colocar um pouco de suas ideias no filme e isso acabou prejudicando o resultado final. Em suma, temos um filme bem produzido e com um bom elenco, mas que se perdeu no meio do caminho. Como o próprio nome diz nesses casos, temos uma adaptação, mas se ela se perde nas suas próprias ideias, ela falhou até mesmo como adaptação.

Revisão: Ailton Bueno