Artigo l Por que ‘The Last of Us’ é filosoficamente tão importante?

Na trajetória rumo a segunda parte de uma das histórias mais relevantes e impactantes no mundo dos games, The Last of Us continua sendo pauta de extensas discussões e argumentações sobre a profundidade de seus questionamentos que, mesmo não sendo nenhuma novidade no campo artístico, continua nos impressionando por conta do excelente trabalho de seus desenvolvedores e a capacidade de evocar em nós sentimentos dúbios, desconfortáveis e difíceis de lidar. Vale ressaltar que o texto abaixo trará milhares de spoilers sobre o primeiro jogo, incluindo seu plot e final, portanto, ele é altamente recomendado para pessoas que já vivenciaram toda a experiência. Esteja avisado.

Antes de prosseguirmos, vale dizer que não abordarei fatores como gameplay ou mecânicas de jogo, pelo menos não de maneira direta a avaliá-las, pois podemos pisar em solo comum e dizer que o game nesse sentido não é revolucionário, pelo contrário, bebe de fontes seguras e sólidas, apostando muito mais naquilo que tem de melhor: sua história.

Vamos iniciar essa reflexão tentando perceber algumas nuances que, num primeiro momento, podem passar desapercebidas aos olhos mais ávidos e vidrados em toda a beleza do caos que se faz presente no início do game. A princípio parece ser uma história apocalíptica comum, a escatologia tão exaltada pelos fãs de cultura pop, o famigerado apocalipse zumbi. Mas é preciso poucos minutos para perceber que suas causas não são tão comuns quanto os demais. A mutação é causada pelo Ophiocordyceps, um fungo real que normalmente é encontrado em formigas e, uma vez estas estando infectadas, agem como ‘zumbis’ pois o fungo passa a exercer controle sobre as mesmas. Ainda assim, você pode estar se perguntando “o que isso  altera na percepção do jogador sobre o universo”? Antes de chegarmos ao cerne da questão, é preciso dizer que aqui temos um fator determinante sobre o pano de fundo onde este mundo está ambientado e, se eu pudesse resumir para você, diria que “a natureza dita as regras”. Perceba que, até onde sabemos, o fungo não foi gerado por humanos, ele não estava sendo manipulado em um laboratório e, por acidente, escapou ou foi usado com motivações escusas por parte de alguma organização ou pelo governo, a natureza foi quem disse em alto e bom som: acabou!

Diariamente recebemos claros sinais da natureza de que as coisas não vão bem. Gastamos os recursos naturais de maneira abusiva, desmedida e visando um lucro exacerbado. Assistimos inertes a mensagens de ativistas clamando para que pensemos no futuro de nossos filhos, e nos filhos dos nossos filhos, mas enxergamos pouco mais do que um palmo a nossa frente. Alerto, porém, que a minha intenção não é te trazer respostas mas sim incentivar a enxergarmos todos os questionamentos propostos pela história do jogo. Dito isso: quantos recados a natureza precisará dar até percebermos que não podemos lutar contra sua soberania? Quanto tempo até percebermos que a nossa ganância poderá ser nossa ruína?

Continuemos nossa jornada indo ao encontro deste que é o aspecto de maior importância no jogo: as relações. Joel, assim como qualquer outro homem, é movido por um senso de proteção. Precisamos garantir a segurança de Sarah e, cada detalhe desse início de jogo parece nos manipular a uma conexão muito forte entre pai e filha, um presente de aniversário que não funciona muito bem mas é carregado de significado, ainda mais após um dia difícil onde aparentemente o trabalho drenara todas as suas energias. Sarah pega no sono e é carregada nos braços, um dos gestos de amor e cuidado mais presentes na vida de um pai e, embora a criança esteja desacordada, o vínculo é intenso e real pois ela sabe que, ao acordar, o seu protetor a conduziu ao lugar de descanso em segurança. Essa conexão proposital é para evidenciar uma rotina, para criar uma conexão não apenas entre pai e filha, mas entre jogador e história. Falamos de Joel, mas o pai poderia ser você, um trabalhador que chega em casa abarrotado de problemas, pensando em como pagar a hipoteca da casa e é recebido com um presente, um sorriso e uma piada reconfortante. Joel não é um herói no sentido clássico da etimologia da palavra, mas é o comum, e por isso ele te emociona.

Numa tentativa de manter sua família a salvo, Joel parte desesperado rumo ao desconhecido esperando uma resposta de uma pergunta mal formulada: como salvar a quem eu amo? Novamente somos expostos a fragilidade da vida humana e começamos a perceber que o fungo evocou o que de pior existia em cada um: o próprio senso de sobrevivência. Sarah morre covardemente durante a fuga inicial, da mesma forma com que Joel jurou em suas ações protegê-la, nos braços do pai, no lugar onde ela mais se sentia segura. O atirador é um trabalhador que cumpre seu ofício e cedeu a ordem cruel diante de uma situação onde era exigido o mínimo de humanidade. Ele se escondeu atrás da ordem daquele que provia o pão para sua casa e, usando esse “escudo” de consciência, puxou o gatilho. Ele morreria segundos depois com um tiro na cabeça, mas sua humanidade havia morrido pouco antes, quando escolheu a mão de quem o paga contra a vida de quem estava a sua frente implorando por misericórdia. Consegue perceber como somos bombardeados por escolhas e suas consequências em todo momento?

Vinte anos se passaram e Joel, bebendo do cálice da amargura, culpa e whisky. Se tornou um homem amargo, frio e vive nesse novo mundo com uma carga psicológica pessoal altíssima, além do peso de um ambiente comandado por violência e o que restou de uma sociedade que outrora parecia minimamente organizada e civilizada.

A jornada de Joel e Ellie, desde o início, seria marcada pelo rompimento. Eventualmente, Joel romperia com Ellie quando a entregasse. Ele sabia de tudo isso e, no fundo, era motivo suficiente para não aprofundar em sua relação com a menina. Maldito Neil Druckmann que nos conduziu em uma jornada onde, para manterem um ao outro vivos, foi necessário criar uma conexão e, aqui vemos outra importante característica de quem somos: para bem ou para o mal, sempre nos conectamos. Ellie estava presente na morte da única família que restou de Joel no pós-pandemia. Ela é não só a personificação do que Joel perdera, mas era sua única conexão em vida. Ellie é para Joel a esperança.

No meio dessa trajetória somos novamente bombardeados com relações e suas cargas emocionais extremamente elevadas, assistimos pessoas tirando a própria vida num momento de epifania profunda, mas para além de todas as conexões e o choque de sentimentos, nada é mais latente do que a sensação de que a maior praga que já povoou essa terra somos nós. Os seres humanos são cruéis demais, egoístas demais, utilizam de suas convicções próprias e seu senso de justiça pessoal como regra de conduta para justificar as maiores atrocidades e violências contra os próximos, seus semelhantes. Esse ódio é visto não apenas por parte dos inimigos que são colocados diante de nós, mas também de toda a violência de Joel e, enquanto isso, assistimos toda a inocência de Ellie desaparecer. Joel era um homem violento e com uma missão, mas Ellie era a leveza e pureza da caminhada. Contudo, ela também havia se entregado ao ‘sistema’ daquele mundo e, através de suas mãos, um semelhante havia morrido. Ellie mudou, Joel também. Muito mais do que a ruptura programada com a entrega de Ellie, Joel havia rompido com suas barreiras que o impediam de se conectar e, assim, projetou toda a culpa, a ausência de propósito, a segurança paterna que um dia lhe faltou prover, tudo isso estava agora sobre Ellie que, por sua vez, havia rompido com a inocência, com suas piadas para quebrar o gelo do velho ranzinza que a guiava, ela havia rompido com a esperança de que o mundo poderia ser um lugar melhor. Todos nós rompemos com algo quando expostos a uma situação extrema.

 

Quase chegando no hospital começamos a experimentar as consequências da ruptura nas relações interpessoais. Joel vivia um momento de aceitação onde ele abraçou o fato de se importar de verdade, assumiu a postura de cuidado com quem ele outrora tratou apenas como uma missão. Ellie por sua vez vivia uma crise onde sua voz emudeceu, mas foi subitamente tocada ao chegarem na cena das girafas. Essa cena é simbólica pois traz consigo o renascimento da esperança, de ver que a impiedosa natureza que outrora nos castigava por nossos próprios atos, mandava um recado claro novamente: “eu encontro meu jeito de sobreviver”. A natureza gerou a vida e, diante dos seus olhos, ela contemplava ávida, com regozijo pois era algo que ela nunca tinha antes testemunhado, afinal, já nascera em contexto pós-pandêmico, foi o sopro que a motivaria a ter em si acesa a chama da esperança de que a vida poderia resplandecer novamente.

O grande clímax e o ponto polêmico de toda a jornada está no hospital onde, ao descobrir que a possibilidade de salvar a vida de muitos estava em uma maca, entraria em uma sala de cirurgia e não mais voltaria, fez manifestar em Joel o que vimos durante todo o jogo: O egoísmo e a militância em causa própria. Cada morte naquele momento em diante teria seu preço, Joel sabia disso e, ainda assim, movido unicamente por suas próprias convicções e motivos, assinou sua sentença de morte. Joel escolheu a vida da Ellie e sabia que um dia poderia ter seu desprezo, em troca da possibilidade de cura para milhares de outras pessoas. Novamente, não estou aqui para julgar se o que ele fez é correto ou não, afinal, sabemos que as possibilidades eram pequenas e que os Vagalumes não eram pessoas tão confiáveis assim. O que eu quero mostrar é que, em sua essência, Joel não é diferente de nós. Comemoramos cada morte do hospital, vibramos ao resgatar Ellie pois isso é quem somos e, motivados pelo nosso próprio egoísmo tomamos atitudes unilaterais e cegas de propósito.

Druckmann nos mostra que, o tempo todo, todos nós somos o Joel e, numa cena com uma arma apontada para nós, tal qual no início do game, tenta justificar para nós mesmos de que não havia outra decisão. Toda a carga de vida é posta sobre nossos ombros e reafirmada: Todos nós faríamos o que o Joel está fazendo agora, ela está em seus braços e, assim como Sarah outrora esteve, completamente indefesa. Nós somos os caras normais que escolhem guerrear as próprias batalhas, que tem a empatia limitada pela perspectiva também limitada de vida e de experiências que acumulamos na caminhada. The Last of Us nos mostra que o livre arbítrio não é um conceito pleno em si mesmo. É impossível arbitrar sem levar em consideração essa carga de vida e todo egoísmo existente dentro do nosso ser e, se isso afeta nossa decisão, todo conceito de liberdade da mesma é automaticamente invalidado. Toda decisão é arbitrária e todas elas terão consequências, e essas consequências serão enfrentadas dia 19 de Junho, quando será lançada a continuação dessa história maravilhosa que nos aproxima de nós mesmos, nos faz questionar nossas motivações e desperta os sentimentos que por vezes tentamos esconder nas sombras do nosso “eu”, mostrando o porquê de este jogo ser aclamado como um marco filosófico na história dos games.

The Last of Us 2 estará disponível no dia 19 de Junho, como dito anteriormente, apenas no Playstation 4.

Jogador de shooter, survival horror, horror games e todos seus sub-gêneros. Músico e fã de Queen, Muse e Avenged Sevenfold. Idoso de alma e amante de café.