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Crítica | Blow-Up – Depois Daquele Beijo

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Cinema

Crítica | Blow-Up – Depois Daquele Beijo

Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966) é um clássico de Antonioni que ainda levanta discussões em meio a sua primazia estética.

Quase nunca escrevo sobre clássicos, mas se a iconicidade deles perdura por tanto tempo, é porque ainda há muita coisa para se falar sobre. E um caso aberto para discussões é Blow-Up – Depois Daquele Beijo (1966), dirigido pelo aclamado diretor italiano Michelangelo Antonioni, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes – sendo esse um dos meus filmes favoritos.  

A história, baseada no conto As Babas do Diabo, do escritor argentino Julio Cortázar, gira em torno de Thomas (David Hemmings), um requisitado fotógrafo de moda, imerso no movimento mod dos anos 60 na Inglaterra. Em certa ocasião, Thomas fotografa despretensiosamente em um parque, e ao revelar os negativos, descobre provas de um assassinato em suas fotografias. 

Blow-Up foi o primeiro filme de língua inglesa de Antonioni, e é ambientado no movimento subcultural da Inglaterra dos anos 50-60. O estilo de vida dos mods buscava a liberdade, tanto sexual quanto no uso de certas substâncias – de forma enérgica e combativa. Era muito pautado pela moda e pela música, sendo propagado por bandas como The Who, Small Faces, The Jam e The Yardbirds – essa última faz uma performance no filme. O próprio The Who tem um longa que retrata o movimento, chamado Quadrophenia (1979). 

Pensamos a realidade através da fotografia em Blow-Up 

Esse é o cenário no qual Thomas se encontra, um fotógrafo mod renomado, desejado pelas mulheres, que só quer ver a beleza do mundo através de suas lentes – e fumar uma boa maconha. Porém, ao descobrir as provas do assassinato em suas fotos, a própria estrutura de sua existência é abalada. O fotógrafo fica obcecado pelo caso e entra de cabeça não apenas no crime, mas no próprio vazio substancial em relação aos valores que o cercavam. 

blow up ensaio

Quem conhece Antonioni, sabe de suas tentativas de representar o homem moderno, que já não encontra mais sentido em certezas religiosas, mas sim em valores volúveis, que mudam conforme o ritmo de um mundo em desenvolvimento. A decadência do homem moderno é retratada em sua trilogia da incomunicabilidade, composta por: A Aventura (1960), A Noite (1961) e O Eclipse (1962). E em Blow-Up o diretor foge da Itália, para agregar um recorte antropológico da Inglaterra.  

Uma característica peculiar de Antonioni é que as imagens do seu cinema tomam a forma de pinturas, sendo estilisticamente muito apreciável – e influente no cinema de arte. Os longos takes sem cortes, que tem seu desfecho em enquadramentos artísticos, fazem bom uso de situações sem nada de especial, que ilustram o vazio vivido por Thomas. Acompanhamos atentamente as cenas, que no fundo não mostram momentos importantes, mas ao menos apresentam belas imagens, com cenários e cores cuidadosamente selecionados.  

A construção estética traz beleza ao tédio da existência 

Blow-Up é uma experiência estética. Isso está sonoramente evidente pela trilha de Herbie Hancock. As músicas misturam jazz, blues e rock sessentista, que se misturam e se adaptam às diversas situações. As minhas favoritas são as faixas de jazz, a especialidade de Herbie, visto que o mesmo já colaborou até com Miles Davis. A calma e leveza dessas faixas são como suspirar entre as cenas, mesmo que isto seja rompido posteriormente com a performance frenética e radical dos Yardbirds. 

Na parte da performance temos um ponto crucial: as pessoas no show estão sérias, observando de forma alienada. São pouquíssimos que estão dançando ou parecendo minimamente animados com a banda. E ver Thomas buscando algo, no meio dessa multidão, é como ver uma peça daquele state of mind que se desprende ou que despertou. Já não existe conforto em pertencer a algo ou ter prestígio em suas ambições artísticas. 

blow-up thomas e a camera

Quando alcançamos o desfecho, já estamos certos de que Blow-Up não está preocupado com a resolução dos problemas, e sim com o horizonte enigmático que se abre. Experimentar a realidade enquanto algo incompreensível em sua totalidade é algo desolador, que abala o alicerce da existência extasiante de Thomas. Sua conclusão não parece representar apenas uma aceitação dos mistérios não solucionáveis da vida, mas uma renúncia do real enquanto algo provido de sentido. 

É com estilo em imagens, sofisticação sonora e uma extrema indagação narrativa que Antonioni confecciona e consagra Blow-Up. Seu potencial de discussão é eterno, visto sua proposta – ou os rumores de que deveria ter uma continuidade que estava além do orçamento. Mas o importante é que não atende as expectativas de títulos desse gênero, em prol de um formato profundamente artístico que fomenta a reflexão sobre o caráter dubitável da realidade. 

 

Jornalista e pós-graduando em Metafísica e Epistemologia. Atualmente sou redator no Torre de Controle.

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