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Análise | Weedcraft Inc. e a construção do império da Marijuana

Um grande amigo meu me disse uma vez que os pilares de um bom negócio estão fundamentados em três simples partes: planejamento, execução e gestão de resultados. Ótimo, é um início e norte para quem quer empreender, principalmente se estivermos falando de um dos negócios mais rentáveis do mundo: a Maconha.

Os Estados Unidos, país que comandou o combate as drogas no século 20, se abriu a discussão e liberou o uso e comércio em alguns estados para fins medicinais, e em outros também liberou para fins recreativos. A soma disso resulta em 30 estados onde a erva transita livremente, o que representa 62% da população do país*.

Surfando na onda da legalização e comércio da ganja, a Vile Monarch em parceria com a Devolver Digital nos traz o Weedcraft Inc., um simulador de produção e distribuição da erva que, de tão detalhado e bem pensado nos leva a refletir em questões ainda mais profundas sobre os benefícios e malefícios de uma possível legalização em terras tupiniquins.

Antes de começar a falar do gameplay, é preciso ressaltar um dos pontos fortes do jogo que já notamos em sua introdução, quando somos apresentados à sua trilha sonora. É possível perceber o esmero da produtora ao nos apresentar batidas de hip-hop com elementos que nos remetem a velha guarda do estilo, transitando pelo reggae e com linhas que, apesar de respeitarem o estilo proposto, não trazem ausência de diversidade musical ao jogo.

O jogo te coloca na pele de Jhonny, um estudante sem grana (nenhuma novidade aqui) e que acabou de perder o pai. Sem dinheiro para pagar o MBA e sem ter de onde tirar o próprio sustento, seu irmão maconheiro te apresenta o universo do plantio e comércio de erva. É nesse contexto que o jogo inicia sua fase introdutória onde aprendemos a mecânica básica e damos os primeiros passos no plantio da erva, em casa mesmo, com estrutura precária e duvidosa, plantando uma erva chamada “Reggie” de procedência semelhantemente duvidosa. Nesse ponto inicial do jogo é preciso bastante atenção e paciência, principalmente para quem está iniciando em jogos de simulação pois as nuances do plantio, assim como as particularidades das primeiras variações de plantas que você comercializará, são detalhadas aqui através de pequenas ‘missões’ e a paciência se faz necessária justamente pelo fato de que o jogo te limita, num primeiro momento, a cumprir essas pequenas etapas para avançar ás escolhas que você fará de fato e que impactarão em sua experiência com o jogo.

O plantio envolve um processo detalhado de escolha da semente, iluminação, qualidade do solo, condições de plantio, poda e até mesmo a manipulação de minerais para potencializar os efeitos da erva, o que pode ser extremamente lucrativo dependendo do seu público alvo. Vale ressaltar que essa é uma das partes mais divertidas do jogo; em muitos momentos você se pega manipulando as condições de plantio e tentando novas formas de variar os resultados dos mesmos. A medida que você vai aprendendo a maneira correta de plantar, você é introduzido ao comércio de seu produto que tem como público alvo inicial os mendigos e moradores de rua. É importante sempre monitorar a qualidade da sua erva, já que faz parte do processo precificar o mesmo e, caso a qualidade caia, menos interesse as pessoas terão em comprá-la. Expandir o comércio e ganhar mais dinheiro para construir o império da Cannabis passa justamente pela demanda da erva, sendo que cada público alvo requer um tipo diferente de erva, cabendo a você administrar seu espaço de plantio de acordo com sua abordagem comercial. Você pode atender a diversos tipos de público, tais como atletas, políticos e até mesmo pessoas que estão tratando de doenças e fazem o uso medicinal. Como se tudo isso não fosse suficiente, você deve se preocupar em eliminar os primeiros pontos de concorrência na venda da erva – como você vai lidar com isso é uma das muitas decisões que afetam diretamente na sua abordagem e construção de negócio. É tudo uma questão de planejamento.

Uma das escolhas interessantes que o jogo dá é justamente a de operar na ilegalidade ou lutar pela liberação de comercialização limpa, o que te faz até ser bem quisto na sociedade. Curiosamente, na quadra ao lado de onde você inicia sua jornada, existe um posto policial e que possui um nível que indica o quão desconfiadas as autoridades locais estão com o comércio o qual você vem exercendo, então pode ser necessário ás vezes massagear o ego de um agente da lei para se safar, ou até mesmo um “agrado” financeiro. Ter a polícia do seu lado é um elemento primordial para a saúde de sua empreitada, por isso, priorize mantê-los por perto e do seu lado nesse processo.

Para que a consolidação de seu negócio seja um sucesso, você dependerá da contratação de funcionários, e aqui é um ponto crucial mesmo, pois eles podem roubar você e te dedurar caso se sintam ameaçados. Você contará com funcionários na sua linha de plantio e produção, nos pontos de venda e também em comércios que servem como distração para não levantar suspeitas das autoridades. Para lograr êxito em suas empreitadas, é prudente manter um bom relacionamento com seus funcionários, faça com que eles te respeitem e o amem para evitar quaisquer transtornos possíveis e ter sempre pessoas com quem você possa contar; essa tarefa fica mais fácil quando escolhemos as vias legais de comércio. O jogo permite aprofundar nas histórias dos personagens e explorar essas conexões pode parecer cansativo no começo, mas quando você percebe que pode usar esse elemento para manipular as situações a seu favor, acaba ficando mais divertido.

Além da preocupação com os seus colaboradores, é preciso ficar atento aos seus inimigos e concorrentes pois a medida que você cresce, as investidas aumentam e suas possibilidades de resolução de problemas são amplas, escolher sabiamente como proceder pode mudar drasticamente o rumo do jogo. A linha entre usar a violência ou simplesmente pagar para o problema “sumir” é muito fina.

Expandir os negócios é o objetivo, e o jogo permite com que você explore isso indo para outras cidades levando sua mercadoria, ampliando seus laboratórios para descobrir novas fórmulas e combinações de minerais e elementos, mas lembre-se sempre de que grandes poderes demandam grandes responsabilidades e, a cada degrau os problemas aumentam e você é instigado e desafiado a ir em direções que fazem você questionar seus valores pessoais e a forma com que lida com seus problemas à medida que os mesmos começam a sair de seu controle.

O jogo possui alguns pontos negativos que não desabonam sua experiência, um deles é o ritmo inicial que é um pouco lento, limitado e nos dá a impressão de que a narrativa pode ser muito linear, quando na verdade não é. Outro ponto negativo que vale ser mencionado é a previsibilidade do jogo quando lidamos com a resolução de problemas: é fácil ver onde a história vai dependendo da escolha e não há nenhum roteiro muito bem elaborado quanto a isso. Você perceberá também com o tempo que a demanda é sempre muito grande e quase infindável, o que acaba tornando o jogo tedioso depois de um tempo, já que se torna um ciclo comum e os problemas vão se tornando mais previsíveis.

Weedcraft tem virtudes muito grandes, principalmente se tratando da escolha do visual cartunesco, o uso de cores vivas e vibrantes, passando por sua incrível trilha sonora e ambientação. Entender as diferentes maneiras de cultivo, as variações de ervas e o resultado esperado no consumo de cada uma torna sua experiência ainda mais atrativa, além de nos levar a reflexão sobre um assunto que ainda é tratado com cautela em discussões públicas. O cuidado em detalhes proposto pelo game deve ser levado a sério, principalmente quando consideramos que o consumo e comércio em nosso país é ilegal. Se você tem interesse pelo assunto ficará satisfeito em como a abordagem de algo polêmico foi feita de uma forma técnica e ao mesmo tempo bastante divertida.

O jogo está disponível para Windows e MacOS, e esse review foi elaborado com uma cópia de PC gentilmente cedida pela Devolver.

*números de relatórios oficiais do final do ano de 2018.
Jogador de shooter, survival horror, horror games e todos seus sub-gêneros. Músico e fã de Queen, Muse e Avenged Sevenfold. Idoso de alma e amante de café.