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Análise | River City Girls: Um Spin-off Conturbado

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Você já esteve interessado em um jogo onde parecia que todas as estrelas estariam alinhadas para que você gostasse dele, apenas para se desapontar profundamente quando você finalmente o tem em mãos? Você se empolgou com os trailers, viu que a desenvolvedora era uma que você gostava muito e que o gênero era um de seus favoritos, mas na hora do vamos ver, o jogo simplesmente não atendeu a nenhuma das suas expectativas – talvez você já tenha estado aí, e é exatamente isso que aconteceu comigo e River City Girls.

River City Girls é um jogo de gênero beat ‘em up (também carinhosamente conhecido no Brasil como “briga de rua”) publicado pela Arc System Works e desenvolvido pela WayForward Technologies, também responsável por jogos como Double Dragon Neon, Ducktales Remastered e a saga Shantae. Como é visível pelos títulos citados, a empresa tem um histórico de dar nova vida a outras franquias, e River City Girls não é diferente – Se trata de um spin-off revivendo a saga Kunio-Kun, trazida para o ocidente sob o nome de “River City” e mais conhecida pelo jogo River City Ransom, lançado para NES em 1989. River City Girls se passa no mesmo universo com uma inversão de papéis: Enquanto em Ransom a namorada de Kunio, o protagonista, era raptada, e se juntava a seu amigo Riki para resgatá-la, no jogo atual Kunio e Riki são raptados e suas namoradas Kyoko e Misako é que precisam correr para salvá-los.

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Com a premissa do jogo contada através de paineis ao estilo mangá, as garotas escapam de sua detenção na escola River City High e vão atrás de Kunio e Riki, derrubando todos os outros delinquentes juvenis que encontram pelo caminho. Desde o início podemos ver o quão visualmente bem trabalhado é o jogo: com o estilo mangá anteriormente mencionado e um pixel art para a maior parte do jogo muito bem detalhados e coloridos, River City Girls é um deleite para os olhos. Os personagens tem animações fluidas e exageradas com bastante personalidade, os paineis estáticos são sempre muito bem-acabados (mesmo que notavelmente se repitam algumas vezes) e o jogo possui em seus cenários e animações diversas referências à saga em que se baseia e a outros jogos do gênero (em especial Double Dragon).

A trilha sonora reflete muito bem o clima “colegial” e jovial do jogo, envolvendo muitas vezes o som característico de “chiptune” e algumas vezes até vocais. Além disso, o jogo inteiro é povoado de interações, com os atores dando vida aos personagens – com resultados mistos, mas estes resultados são reflexo principalmente do roteiro. Enquanto uma boa parte de River City Girls possui um roteiro bom, um número notável de interações acabam por ser forçadas ou irritantes (estou olhando pra você, Kyoko).

Quanto à jogabilidade, River City Girls é, como mencionado, um beat ‘em up: ondas de oponentes virão enquanto você atravessa cada parte do cenário e tentarão te derrubar na milenar arte da porrada e cabe a você se defender. No caminho, os jogadores passarão por lugares como um shopping, a parte rica de uma cidade, uma construção e outros ambientes urbanos que serão casa de personagens secundários que pedirão favores, lojas para comprar itens e equipamentos, dojôs para aprimorar suas habilidades e muitos inimigos com sangue nos olhos. A estrutura é similar a River City Ransom, onde o jogo não se divide em fases e sim em um grande mapa, facilmente acessível que mostra os objetivos, lojas e dojôs de cada lugar, com diferentes locais que você deve explorar lutando contra novas ondas de oponentes diferentes.

O jogo possui controles simples, variando entre ataques leves, fortes, alguns ataques especiais, defesa e ocasionalmente agarrões. A beleza de um beat ‘em up está em sua simplicidade e em como o jogo faz o ato de descer o sarrafo em todo mundo que se mexe algo mais satisfatório que ASMR. Infelizmente, é aí que os problemas de River City Girls começam, e não dão indícios de pararem. Seguindo os passos de River City Ransom e similar a jogos como Scott Pilgrim vs The World: The Game, River City Girls possui elementos de RPG: Certos itens podem aumentar seus atributos e dar novas habilidades para as protagonistas, possui um sistema de progressão em níveis implementado, onde cada nível sobe um pouco os atributos de Kyoko ou Misako, desbloqueando novos golpes especiais, ampliando suas opções de pancadaria e destruição – o que em teoria poderia ser bom, mas infelizmente o controle base de River City Girls deixa bastante a desejar.

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A mobilidade de Kyoko e Misako é lenta e travada, o que também reflete nos golpes que possuem tempo muito grande de recuperação (tempo entre realizar um golpe e outro, que deixa você exposto a golpes inimigos) e sua defesa é facilmente quebrada por golpes comuns. Os agarrões só podem ser feitos quando os inimigos estão atordoados, isso não seria um problema se agarrões valessem a pena dando ou um dano considerável ou a opção de derrubar outros oponentes próximos, mas os golpes são da mesma velocidade e efeito de um combo normal e arremessar o oponente agarrado quase não possui alcance, ficando difícil de derrubar mais algum oponente no processo.

River City Girls possui uma mecânica única e interessante: alguns oponentes podem se ajoelhar e suplicar por suas vidas quando estiverem próximos de serem nocauteados, permitindo que você os recrute como aliados temporários. Após recrutados, eles podem ser chamados no meio de uma briga com o apertar de um botão para darem um golpe especial e saírem de cena, algo similar a um botão de “assist” em jogos de luta como Dragon Ball FighterZ ou Marvel vs. Capcom. É uma ideia nova e que dá opções de experimentação, mas infelizmente outro defeito quebra as pernas da mecânica: os golpes da grande maioria dos oponentes recrutados são MUITO situacionais (o inimigo tem que estar pulando em sua direção pronto para dar um golpe, por exemplo) e demoram um pouco demais a atacar – o suficiente para o inimigo vindo em sua direção negar o ataque.

Além de tudo isso, os golpes e combos iniciais simplesmente não tem o devido impacto necessário, tirando bastante da satisfação de realizar o golpe. É algo que vai lentamente melhorando de acordo com a evolução das personagens e com a compra de novos golpes nos dojôs, mas não deveria desculpar o controle base sem sal: Upgrades e melhorias devem ser algo A MAIS, mais opções a um controle que JÁ É satisfatório e divertido de fazer, não um conserto para um problema. Imagine se Devil May Cry 3 começasse com um Dante sem nenhum dos estilos de luta, sem uma esquiva e sem as armas de fogo, e você fosse desbloqueando tudo isso durante o jogo – é essa a sensação que River City Girls passa. Os controles limitados junto aos golpes de pouco impacto fazem com que seja extremamente fácil de levar golpes de graça, algo que poderia ser mitigado por um sistema de esquiva ou “desperation attack” (aquele tipo de ataque que derruba os inimigos ao seu redor em troca de um pouco de vida, presente em Final Fight, por exemplo), mas o jogo opta por um botão de defesa cuja eficiência é tão baixa que quase não vale a pena usar.

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Mencionei as lojas para comprar itens e equipamentos há alguns parágrafos atrás – vamos voltar a atenção para elas novamente. Os itens consumíveis podem ajudar a recuperar sua energia para se manter em pé enquanto você tenta (e bota “tenta” nisso) limpar o chão com as caras dos oponentes, mas tem – de novo – um porém: Você não sabe o que aquele item vai fazer antes de comprar e usar. Ou seja, a menos que você seja o tipo de pessoa que usa o botão “Estou com Sorte” do Google, você provavelmente vai ter que comprar o item duas vezes: uma para ver o que ele faz, e mais uma para guardar ele para depois. E sim, isso é algo que é tirado diretamente de River City Ransom, mas era um problema lá, assim como continua sendo um problema aqui. Ransom é um jogo de literalmente 30 anos atrás, precisava manter esse mesmo erro?

Mas o pior não são os itens consumíveis, esse troféu vai para os equipamentos. Os equipamentos dão bônus permanentes para as protagonistas, e podem ser equipados dois de cada vez, sendo naturalmente mais caros do que os itens consumíveis. O problema aqui é que você continua sem saber o que o item faz até que você o compre, e para piorar a situação, os equipamentos dão bônus ínfimos: 5% de chance de dar mais dano em oponentes mulheres, recuperação de 1% de vida a cada inimigo derrotado, e muitos outros com bônus que não só aumentam as CHANCES de algo acontecer – o que significa que você gastou $200 em um item que 95% do tempo não vai funcionar – como os valores dos bônus são quase insignificantes.

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Pela primeira – e espero que única – vez, eu concordo com você, Kyoko. É triste.

Por fim, os chefes de River City Girls são, assim como quase tudo no jogo, variados em qualidade. Alguns são simples e diretos ao ponto, alguns possuem mecânicas novas e interessantes – incluindo algo semelhante a um bullet hell – e alguns simplesmente fazem o que querem na hora que querem. Pelo menos uma coisa pode ser ditas, todos possuem animações e atuações de voz louváveis. É uma pena que o roteiro continue deixando a desejar. O jogo possui dois finais, um normal e um secreto por encontrar todos os bustos espalhados pelo jogo, com uma conclusão que beira entre o engraçado e o frustrante – mas isso só pode ser descoberto por conta própria…

Concluindo, River City Girls é um jogo muito bonito de se ver, mas de execução rasa e desapontadora, especialmente se comparado a outros jogos do gêneros, incluindo o anterior Double Dragon Neon desenvolvido pela mesma empresa. Em sua empolgação para se ater ao original e para incluir um sistema de progressão que incentivasse mais jogatinas, River City Girls se esquece de se focar em coisas básicas que fariam com que o jogo fosse realmente bom de se jogar. Controles mais fluidos e rápidos, opções defensivas mais eficientes, impacto nos golpes – todos são opções válidas para melhorar o jogo. Um beat ‘em up não precisa ser extremamente complexo para ser divertido, mas os controles base precisam ser bem planejados para que, mesmo se os jogadores escolherem permanecer sem nenhum golpe novo, eles se divirtam desde o começo. Infelizmente, assim como os próprios inimigos que você enfrenta, os problemas de River City Girls continuam vindo para tentar colocar um bloqueio entre você e seu divertimento, e como um fã da empresa e do gênero, fico extremamente desapontado.

River City Girls está disponível para PS4, Switch, Xbox One e PC, e só posso te recomendar esse jogo se você for um fã da saga Kunio-Kun ou estiver precisando URGENTEMENTE de um novo beat ‘em up – e mesmo assim, eu ainda recomendaria outros jogos como Mother Russia Bleeds ou Double Dragon Neon no lugar deste.

Esta análise foi feita usando uma cópia para Switch adquirida pelo próprio autor.

Cientista Ambiental, Ilustrador, Tradutor e Editor que vive de cabeça nas nuvens. Anda ouvindo a OST de Danganronpa, é pai de 4 gatos, ri de coisas sem sentido, é vegetariano e tem uma paixão por maracujá. Ama jogos de plataforma, histórias bem contadas e tem mania de jogar coisas esquisitas, e seus jogos favoritos incluem as sagas The Legend of Zelda e Metal Gear, Super Metroid, Persona 5 e Shadow of the Colossus.