Cinema Críticas Especiais - Cinema

Crítica | Entre Facas e Segredos – Um mistério digno de um pocket book do Século XX

 

No início do século XX, um nobre senhor chamado Arthur Conan Doyle criou o que viria ser o clássico detetive que marcou época e marca até hoje: Sherlock Holmes. É evidente que o excêntrico detetive inspirou diversos personagens e histórias em diferentes mídias, assim como Hercule Poirot da escritora Agatha Christie também o fez de forma mais técnica. Mas como estes famosos personagens inspiram a obra cinematográfica de Rian Johnson indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original?

Rian Johnson traz em Knives Out! não apenas uma história bem amarrada de ponta a ponta, a estética, o universo e até mesmo a personalidade dos personagens é cuidadosamente criada para que a história funcione.

Temos Daniel Craig, no que podemos considerar seu melhor papel depois do lendário James Bond na franquia 007. Neste longa, ele interpreta o detetive Benoit Blanc. Um personagem não tão original, mas a perfeita junção entre o Hercule Poirot e o Sherlock Holmes citados anteriormente. Entretanto, Blanc tem uma particularidade única que o traz para a realidade pós moderna em que habita: Ele é o último detetive cavalheirístico, como assim é chamado. Ele não é apenas um detetive com aspectos literários, ele é o último. Blanc é um personagem meticulosamente bem feito para se encaixar na trama, assim fugindo dos clichês dos romances de mistério. Ele foi criado em um aspecto visual quase que inteiramente único para o cinema e isto o diferencia dos demais detetives da cultura pop.

Muitos podem considerar que Rian Johnson fez nesse filme a sua própria adaptação de O Assassinato no Expresso do Oriente da renomada autora de mistério Agatha Christie. Mas não, por incrível que pareça, ele cria um universo de histórias por uma simples premissa: a morte de um escritor, o que por si só é um irônico simbolismo. A todo instante, somos lembrados de suas obras, assim como é citado, em específico, um filme que em seu plot elabora um foreshadowing do que seria uma das grandes revelações da trama.

Os detalhes incorporados no cenário, no figurino e na personalidade dos personagens é delicadamente pensado para que a história ande e se desenvolva. Cada objeto de cena tem sua importância para que auxilie os personagens no desenvolvimento do trama.

A história é quase que sufocante, construindo um sentimento de ansiedade onde qualquer pessoa pode ser responsável por uma ação que levaria a um assassinato, porém, diferente das demais histórias de investigação na qual estamos habituados, o possível principal responsável é revelado de cara no início do segundo ato e com isso a trama se desenvolve na esperança de protegê-lo. O caso dissolve-se até a última hora, fechando todas as pontas e possíveis dúvidas sem apelar para clichês e artifícios preguiçosos de roteiro. É como se a trama fosse escrita do fim para o início, e cada diálogo fortalecesse a personalidade e ações de personagens específicos para levar o espectador a desconfiar do mesmo.

Mesmo com um elenco de peso, o filme não se segura apenas nisso e quase que teatralmente incorpora trejeitos e manias para cada ator interpretar. Sem falar que o fato de se passar quase que integralmente na casa onde o crime ocorreu reforça a sensação de estar assistindo uma peça e não um filme, pois até mesmo quando o filme destoa do cenário, as cenas ocorrem em ambientes fechados e exclusos, focando na atuação.

Um filme artístico e bem escrito. Boa comédia e um suspense leve e cômico. É um bom filme para se assistir numa noite de sábado com os amigos e criar teorias sobre quem é o assassino. Até mesmo relembra os famosos jogos de detetive de tabuleiro, onde se deve achar o culpado através de pistas e reações dos participantes.