Análise | Crash Bandicoot 4: It’s About Time – Uma franquia que conseguiu se reinventar

O final da geração do PlayStation 4 reservou uma grande surpresa totalmente inesperada: o completo ressurgimento de uma das maiores franquias nos consoles da Sony. Depois de ter ganhado versões remasterizadas da clássica trilogia e dos jogos de corrida, chegou o inevitável momento de partimos para uma aventura totalmente inédita com Crash Bandicoot 4: It’s About Time, possivelmente a maior surpresa do segundo semestre de 2020, visto que não havíamos nenhuma previsão ou indicativo de que uma nova aventura de Crash estava sendo desenvolvida.

História conectada pelo tempo

It’s All About Time faz sentido não apenas no nome e na história, mas durante toda a narrativa que compõe este jogo. Crash, Coco e Aku-Aku curtiam um merecido descanso até que uma nova ameaça surgiu, vinda de N.Trophy (o senhor do tempo) que gostaria de controlar as máscaras quânticas, os espíritos reencarnados como máscaras. Cada uma das quatro máscaras quânticas oferece uma habilidade especial específica, contribuindo bastante para a experiência do gameplay. Lani-Loli é a máscara da Fase, que consiste no controle de aparição e desparecimento de diversos objetos e obstáculos que coexistem em um mesmo tempo-espaço. Akano é a máscara da Matéria Negra permitindo que Crash e Coco possam rodar com bastante força e realizar pulos extremamente longos. Kupuna-Wa é a máscara do Tempo, que permite o decréscimo do espaço temporal de absolutamente tudo, fundamental no prosseguimento de determinadas áreas das fases. Por fim, Ika-Ika é a máscara da Gravidade, onde Crash e Coco podem mudar sua gravidade ao acionarem o apetrecho. Este detalhe pode acabar passando batido por muitos mas, aqui temos uma homenagem à Crash Bandicoot: The Wrath of Cortex que felizmente não foi totalmente ignorado por parte dos desenvolvedores. O conceito de quatro máscaras elementares do tempo foi utilizada pelo antigo jogo de PlayStation 2 e Xbox.

Durante a jornada de Crash 4, os dois aventureiros se reencontram com antigos conhecidos que ajudam ambos à campanha para derrotar N.Trophy. Contabilizando as fases exclusivas de Neo Cortex, Dingodille e Tawna (as quais serão detalhadas mais abaixo) e as boss battles, são mais de 40 fases disponíveis neste jogo, as quais aumentam para mais de 75 considerando que praticamente todas possuem versões espelhadas por causa de uma realidade alternativa. Sem citar spoilers, toda a narrativa desta aventura se acontece em torno do tempo e de uma realidade que poderá ser alterada caso N.Trophy, ou qualquer outro vilão, consiga seguir adiante com seus planos.

Exemplo de uma fase espelhada

Mecânicas renovadas de gameplay levam à experiências inéditas

Nas mecânicas de jogabilidade é onde conseguimos perceber as principais similaridades com o primeiro Crash, desde ao sistema de progresso até aos layouts dos mapas que se alternam para um modelo “vertical” em diversos momentos, além de armadilhas cegas espalhadas em diversos pontos do cenário. Porém, diversas novidades surgiram na construção deste jogo e acabam inclusive surpreendendo os mais experientes da franquia ao apresentar um nível de dificuldade acima da média (principalmente em relação à Crash 2 e Crash 3). Dentre os principais destaques temos a possibilidade de até seis diamantes serem conquistadas por fase com os mesmos critérios, adicionando bastante desafio para concluir 100% do jogo, principalmente os diamantes correspondentes ao conseguir achar todas as caixas (assim como em Crash 1, há diversas fases com caixas escondidas) e ao conseguir encontrar um diamante secreto em todas as fases, um “sofrimento” que os fãs passaram apenas nos dois primeiros jogos (visto que os diamantes especiais não ficavam tão escondidos assim em Crash Bandicoot 3: Warped). Ainda há um diamante que é entregue caso consiga completar a fase com pelo menos três mortes, além dos tradicionais diamantes coloridos: Vermelho, Azul, Amarelo, Roxo.

Os seis diamantes possíveis por fase

É válido também observar que as fases foram separadas em três momentos. No trecho inicial, poucos inimigos e uma prévia do que o jogador encontrará no segundo trecho, que aprofunda as características específicas e que definem a fase. A partir do penúltimo (ou último) checkpoint, o último trecho da fase é marcado por um grande desafio com possibilidade de deixar você desprevenido em diversos momentos, custando importantes vidas durante este processo. Em um exemplo de como o “fator surpresa” realmente impacta os mais desprevenidos está no encerramento da fase “Jetboard Jetty”, onde um boss (chamado Louise) surge no meio do espaço aquático e acaba forçando o jogador à pensar e utilizar uma determinada estratégia para derrotá-lo e avançar na fase. As fases ficaram tão bem estruturas que até mesmo as seções “bônus” deixaram de ter caráter recompensador e passaram a exigir habilidades e estratégias para conseguir destruir todas as caixas e conseguir manter as chances de conseguir os quatro diamantes correspondentes à este objetivo (40% das caixas destruídas, 60%, 80% e todas).

Outra grande novidade foi a possibilidade de poder controlar outros personagens além de Crash Bandicoot e Coco. Através de fases dedicadas à estes personagens, tivemos a possibilidade de jogar com Tawna, Dingodile e até mesmo o Dr. Neo Cortex. Felizmente, cada um deles possuem especificidades bastante definidas e longe de serem genéricas com mecânicas de jogabilidade bem diferentes entre os cinco e tendo fases montadas para cada um dos três personagens. Por exemplo, Dingodile possui a habilidade de aspirar caixas e, em alguns momentos, isso torna-se necessário para conseguir os 100% das caixas. Em outros momentos, aspirar caixas pode causar em mortes instantâneas em armadilhas onde o layout da fase permite a possibilidade de aspirar Nitro. Em outro exemplo, Neo Cortex não possui a função de duplo pulo, mas consegue transformar qualquer inimigo em tábua estática ou “gelatinosa”, fazendo com que consiga pular em alturas maiores para conseguir avançar nas fases. Por fim, Tawna utiliza cordas para atravessar longas distâncias e puxar caixas que estejam fora de alcance.

Uma das maiores surpresas e momentos nostálgicos que podem ser vividos com Crash 4 são as chamadas Flashback Tapes, que consistem em diversas fases especiais que voltam para a década de 90, nos testes de laboratório que o Doutor Neo Cortex executava em Crash (para quem não sabe, o marsupial foi uma criação laboratorial do maior vilão da franquia). Nestas fitas de remetem ao passado, músicas antigas dos três jogos são executados nas fases enquanto o jogador passa pelo “experimento”, que consiste em uma seção bônus estendida com diversas caixas e algumas armadilhas. Para desbloquear estas fases especiais é necessário chegar à determinado ponto de algumas fases da história principal sem ter morrido nenhuma vez. A melhor parte destes especiais nem chega a ser o layout ou a dificuldade das meses, mas é estritamente recomendado que os mais atentos prestem atenção às falas de Cortex pois algumas curiosidades que envolvem o passado do herói são reveladas. Não estaremos entregando aqui detalhes que possam estragar as surpresas, mas asseguramos que diversas revelações são feitas. Em relação à premiação, são distribuídas três medalhas de acordo com a quantidade de caixas obtidas.

Características mantidas e visual atraente

Por fim, um dos elementos que não sofreu nenhuma modificação (felizmente) foi o Time Trial com as relíquias de safira, ouro e platina disponíveis para serem conquistadas de acordo com o tempo que for obtido. O Time Trial é desbloqueado após a conclusão de cada fase, mantendo a tradição de todos os três antecessores (As relíquias não estiveram presentes na versão original do primeiro Crash, mas acabou sendo incluída na versão remasterizada dentro de N Sane Trilogy). Para oferecer ainda mais experiência aos jogadores, todas as fases possuem uma versão espelhada para ser jogada e todos os objetivos serem conquistados novamente. Além de espelhadas, as fases ainda possuem um visual diferenciado em formato de desenho pertencendo à uma realidade alternativa; afinal, como o próprio o nome diz, é tudo sobre o tempo.

O visual e ambientação também chama atenção positivamente. Um excelente uso da Unreal Engine entregou fases atrativas, cheias de cor, alternâncias e puzzles variados. Podemos afirmar que o encerramento da atual geração de consoles acabou ficando acertada com uma boa apresentação dos gráficos. Cabe ressaltar porém que alguns contratempos técnicos podem ser observados, pois algumas das dificuldades impostas para os jogadores foram causadas por alguns problemas de movimentação, semelhantes inclusive aos que foram vistos na versão original do primeiro Crash, podendo levar algumas pessoas à frustrações por não terem conseguido alcançar uma determinada plataforma no timing exato que foi exigido pelos desenvolvedores.

Além disso, em uma determinada fase (“The Crate Escape”) há chances de você ter uma morte forçada no final justamente por um erro técnico onde as plataformas para você pular simplesmente param de surgir, forçando um suicídio. Os problemas foram mais perceptíveis nos pulos, de uma plataforma para outra, onde jogadores novatos (e alguns experientes) encontrarão contratempos não imaginados anteriormente.

Elogiável trabalho na localização brasileira

Um elogio importante que não pode passar despercebido é a qualidade da localização deste jogo para o público brasileiro. Os diálogos foram adaptados para atender as características locais em relação à conversações informais. Tradicionais expressões populares foram utilizadas em diversos momentos, principalmente por Neo Cortex, transformando os diálogos informativos em momentos divertidos. Além disso, os nomes das fases também não foram simplesmente traduzidas mas sim adaptadas com expressões conhecidas pelo público brasileiro como “É Tetra” e “Olho no Lance”, ditas por Galvão Bueno e Sílvio Luiz, narradores esportivos consolidados e históricos na mídia esportiva brasileira. Os fãs mais veteranos da franquia podem acabar preferindo mudar o idioma do PS4 para jogar com as vozes originais as quais estamos todos acostumados à ouvir, mas ainda assim, vale a pena jogar pelo menos algumas horas com a localização nacional para valorizar o bom trabalho realizado pela equipe de dublagem e adaptação.

Conclusão

Podemos afirmar categoricamente que Crash 4: It’s About Time é uma aventura excelente que consiste em agradar, das mais variadas formas, todos os fãs desta longeva franquia em um trabalho onde os desenvolvedores conseguiram executar o árduo trabalho de introduzir elementos inéditos consideráveis para uma franquia já estabelecida, merecendo diversos méritos por causa disso por oferecendo uma experiência nova em quase 25 anos de Crash Bandicoot. Um jogo que inclusive conseguiu ir além de homenagear à própria franquia e prestou diversas homenagens a “franquia irmã” Spyro The Dragon em vários momentos, como se estivesse em festa, celebrando o encerramento de uma geração.


Análise produzida no PlayStation 4 com uma cópia cedida pela Activision

  • História
  • Diversão
  • Jogabilidade
  • Gráficos
  • Áudio/Trilha
4.5

Resumo

Com diversas novidades, a Toys for Bob conseguiu revitalizar a jogabilidade de uma franquia que não possuía jogos inéditos de aventura há mais de 10 anos. Crash Bandicoot 4: It’s All About Time funciona em respeitar as características tradicionais da trilogia original somadas aos aspectos inéditos na jogabilidade e na história.