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The Last of Us Part II: O GOTY e seus méritos

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The Last of Us Part II: O GOTY e seus méritos

Em um ano singular em diversos aspectos, com devastadores acontecimentos, tragédias e notícias ruins, sobressai uma obra que, em seu esplendor é também singular em diversos aspectos, cheia de tragédias e notícias ruins, mas que, diferente do ano de 2020, cumpre tudo o que propõe e nos permite experimentar o que foi reconhecido recentemente como “Game of The Year”, além de diversos outros reconhecimentos nas mais variadas premiações ao redor do Mundo.

O Jogo do Ano (GOTY) do The Game Awards

Em um ano singular em diversos aspectos, com devastadores acontecimentos, tragédias e notícias ruins, sobressai uma obra que, em seu esplendor é também singular em diversos aspectos, cheia de tragédias e notícias ruins, mas que, diferente do ano de 2020, cumpre tudo o que propõe e nos permite experimentar o que foi reconhecido recentemente como “Game of The Year”, além de diversos outros reconhecimentos nas mais variadas premiações ao redor do Mundo.

The Last of Us Part II pode não ter sido exatamente inovador no que tange suas mecânicas, mas não estamos aqui pra aprofundar ou comentar esse aspecto; A verdade é que o jogo é muito mais do que isso, ele quer tocar em feridas abertas, ele quer confrontar sentimentos e nos propor que olhemos muito além do que nossa limitada percepção é capaz de absorver.

A partir desse ponto, trarei spoilers pesados sobre enredo, personagens e até mesmo sobre o final do jogo, portanto, esteja avisado caso queira continuar a leitura.

Uma das maiores dificuldades da vida é encarar a consequência e o peso de nossas decisões, principalmente quando elas carregam consigo um passado de amargura, decepções, fracasso e tristeza. Ser um pai e se esforçar pra ser o melhor que puder ser e ver tudo escorrer entre os dedos, não conseguir proteger sua família, um possível casamento frustrado, a culpa e a solidão alimentaram a história de Joel. A vida tomou contornos difíceis, uma mentira que foi sendo gradualmente desfeita, conforme a história vai nos revelando, desgastou o relacionamento de Joel e Ellie que, apesar de tudo, viveram alguns momentos alegres na caminhada.

Num cenário apocalíptico e caótico, o que nos resta são as relações humanas e, nessa conjuntura de vida, elas são testadas e levadas a exaustão pois já não existe mais nada além de si e do outro e, conviver em paz e harmonia com sua consciência é primordial para manter-se vivo, mas a aparência de Joel revela o quanto o desgaste da vida o afetou. Nos últimos momentos de vida, nos últimos suspiros, ele foi brutalmente confrontado por decisões que ele voluntariamente tomou e, acredite, ele sabia que isso aconteceria cedo ou tarde. Deitado no chão frio, ferido, envolto em seu próprio sangue, ciente do peso que traz sobre si e pensando que talvez a morte não seja um alento tão ruim afinal, ele encara a Ellie com poucas expressões, já com seu rosto deformado e, com um suspiro ele deixa esse mundo.

Foi brutal, cruel e exagerado; E Joel sabia que seria assim, sempre soube, e ainda assim foi o caminho que ele escolheu trilhar.

Não sabemos e nunca saberemos lidar com nossos sentimentos mais extremos, e somos controlados mesmo que temporariamente por eles e, nesses momentos tomamos decisões que vão pesar as nossas costas pro resto de nossas vidas. Ellie escolheu a vingança a todo custo, e foi de fato o que lhe custou: tudo. Ela se tornou, em sua jornada por vingança, aquilo que ela um dia acusou Joel de ser.

The Last of Us Part II

Fomos emocionalmente manipulados. Ao nos vestirmos de Abby somos obrigados a nos despir do conceito que permeia a humanidade: não existe ‘certo’ ou ‘errado’, o que existe é perspectiva. Por qual motivo validamos a vingança de Ellie e desaprovamos a jornada de Abby? A vingança é cega, egoísta e não traz consigo uma satisfação ao ser concluída, pelo contrário, quando somos confrontados pela dolorosa realidade percebemos que ela é vazia em propósito e alimenta um ciclo de violência e retaliação que termina em morte, seja ela física ou emocional.

The Last of Us Part II é uma jornada auto reflexiva pesada, nos coloca em contato com uma parte de nós que talvez seja melhor deixar adormecida. Vivemos bem com o conceito de ‘bem’ e ‘mal’, ‘certo’ e ‘errado’ bem definidos, são balizadores morais de nossos atos, pois é muito mais fácil julgar com base nisso do que entender que, para cada vida e cada decisão, existem critérios muito pessoais, cargas de vida singulares, dores que só quem sentiu sabe descrever e, as vezes, de tão intensas são indescritíveis. Entender que o outro tem motivações particulares que vão além de um conceito pré-estabelecido culturalmente é difícil pois nos coloca em uma posição de completa vulnerabilidade de julgamento, e sempre pendemos a ser juízes sobre tudo, faz parte de nossa natureza.

Neil Druckmann foi cirúrgico em não responder absolutamente nada, pois nada havia de ser respondido ao terminar a caminhada do jogo; Aos olhares mais observadores e atentos, ficam questionamentos e uma quebra de paradigma, fica um convite a uma nova perspectiva sobre o outro, de um olhar um pouco mais piedoso, para além de nossos sentimentos mais animalescos, os quais temos sido constantemente convidados a expressar e vociferar. A fúria precisa dar lugar a reflexão, aos motivos e ao passado que moldou nossos traumas e personalidades. Não há retidão nesse mundo, nem em The Last of Us, nem no mundo real e, se tem algo que carregaremos conosco desse jogo é de que cada um tem seus motivos para tomar as suas decisões e precisamos estar conscientes do que elas vão nos reservar.

The Last of Us Part II é um exclusivo de Playstation 4 e pode ser jogado também no Playstation 5 através da retrocompatibilidade.

Jogador de shooter, survival horror, horror games e todos seus sub-gêneros. Músico e fã de Queen, Muse e Avenged Sevenfold. Idoso de alma e amante de café.

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