Artigo | Booksmart – É Hora de Mudar

É hora de mudar.

A adolescência é a fase de nossas vidas que ilustra perfeitamente essa frase. É a fase onde definimos alguns traços da nossa personalidade e tomamos decisões que vão nos impactar por muitos anos. É a transição de uma vida que, teoricamente não tem preocupações sérias, a infância, para um período onde você tem que contribuir com o sistema e deve carregar toneladas de preocupações sobre os ombros, a vida adulta.

Essa transição não é fácil, é um período de transformações corporais e comportamentais e, apesar de ainda não termos qualquer noção de vivência mais significativa, é o momento que a sociedade cobra maturidade para fazermos escolhas que irão nortear toda a nossa vida.

É por conta desse drama conflitante que a adolescência é um tema muito prolífico para qualquer tipo de obra de arte. Lidar com essas emoções à flor da pele gera muita empatia do público, pois se trata de um tema universal, comum para todos os expectadores: o primeiro beijo, a primeira relação sexual, a primeira decepção verdadeira são temas intrínsecos aos dilemas juvenis.

A cada geração alguns filmes marcam época e se tornam verdadeiros hinos adolescentes. Clube dos Cinco, por exemplo, é um dos mais importantes e segue inspirando a cultura pop até hoje. Porém, quando a geração atual tem contato com o longa, mais de 35 anos após seu lançamento, é natural encarar como uma padronização da juventude através de estereótipos e se sentir impelido a questionar os clichês, além do incômodo causado pelas frases e cenas problemáticas.

Apesar de ser importantíssimo, Clube dos Cinco apresenta um contexto totalmente diferente do que vivemos hoje. A juventude atual rejeita a ideia de se ver representada em um molde engessado, binário e que reforça estereótipos sociais. Anjos da Lei, lançado em 2012, já brinca com essa expectativa de separação entre populares e nerds, e da falsa importância de parecer “descolado” para se dar bem no ambiente escolar, por exemplo.

Clube dos Cinco (1985)

É dessa necessidade de atualização que surge o excelente Booksmart – Fora de Série. O filme foi lançado em 2019 e é dirigido por Olivia Wilde e escrito por Katie Silberman, Sarah Haskins, Emily Halpern e Susanna Fogel.

No longa acompanhamos o último dia de aula de duas estudantes extremamente dedicadas, Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever), que durante anos sacrificaram a diversão em nome dos estudos, visando o “sucesso na vida”. Todos os alunos da classe das protagonistas concordam com uma política de não compartilharem quais serão suas futuras faculdades com a intenção de não deixar certas pessoas “inseguras”, o que teoricamente é um ato de empatia com eventuais alunos que não conseguiram entrar em uma faculdade renomada, mas na verdade mascara uma arrogância intelectual.

Está na hora de mudar!
Booksmart (2019)

No início do filme somos apresentados a alunos “descolados” com atitudes clássicas que vemos em outros filmes adolescentes, desleixados e desinteressados pelo futuro. Booksmart sabe qual será a concepção inicial do público para com esses personagens, e sabe muito bem inverter as expectativas nos primeiros minutos do filme.

Ao final de seu primeiro ato, Booksmart apresenta a sua proposta, brincando com clichês e introduzindo temas comuns, mas desconstruídos. Há anos hollywood representa o arquétipo do nerd como alguém derrotado durante a adolescência, mas que na vida adulta prospera por todo o seu trabalho duro durante a época escolar, enquanto a galera popular é em sua maioria arrogante e que, inevitavelmente, seu futuro é se tornar um profissional de “menor capacidade”.

É até fácil se perder nessa narrativa, afinal, estamos convivendo com ela desde a nossa infância, porém é importante ressaltar que esse discurso na verdade é bem tóxico e ignora completamente uma série de outras inteligências que não necessariamente abrangem o conteúdo acadêmico, é uma narrativa que supõe uma hierarquia intelectual, separando pessoas “melhores” e “piores”. Essa linha de pensamento é a mesma que leva pessoas a desprezarem certos estilos musicais, como o funk, tentando deslegitimizar um movimento cultural importantíssimo para a nossa sociedade.

É a partir da consciência de diversidade, social e intelectual, que o filme realça os pontos negativos das protagonistas, principalmente Molly, e dá o pontapé inicial na aventura. Ao ser forçada a encarar seus preconceitos, Molly decide descarregar todos os últimos anos de trabalho duro exagerados em uma única noite de diversão. Amy, apesar de não estar muito interessada no plano da amiga, também embarca na noite de loucuras.
A premissa é boba. Assim como boa parte da nossa adolescência.
É uma história simples que aborda confiança, amizade, primeiras experiências e inseguranças. Sem dúvidas, um amontoado de clichês, mas completamente repaginados e que são carregados pelo carisma do elenco.

A diretora de primeira viagem, Olivia Wilde, consegue ser concisa e criar personagens carismáticos em pouquíssimos minutos de tela. Em muitos momentos não é nada sutil com a mensagem que quer passar ao público, mas essa é a intenção. O filme quer fazer barulho, quer fazer com que você o note, pois os tempos mudaram caso você aceite isso ou não, então sim, é um filme que vai mostrar uma garota lésbica com dúvidas mecânicas a respeito de sexo, é um filme sobre como a sociedade impôs a binariedade e também é um filme sobre julgar as aparências, sejam elas físicas ou comportamentais. E isso é incrível.

Booksmart – Fora de Série representa uma nova geração de forma saudável e relevante, sem deixar de ser divertido. É a manifestação física da frase dita pela própria diretora em uma entrevista ao The Guardian:

“Vocês [adultos] nos colocaram em uma situação política ferrada, o planeta está morrendo, há maníacos no poder, vocês criaram uma forma binária de pensar a respeito de sexo e gênero, e nós não aceitamos isso. Na verdade, nós vamos mudar isso. Já chega!”

Olivia Wilde – Tradução Livre

Espero que vejamos mais e mais filmes como Booksmart no futuro, sejam comédias, dramas, filmes de ação, não importa. A sociedade está se transformando e é hora de mostrar, através de pequenas ações no dia a dia ou com arte, que o mundo não é resumido a cérebros, atletas, casos perdidos, princesas e marginais.

A juventude é muito mais do que isso. O mundo é muito mais do que isso.

É hora de mudar.

A cultura pop pode nos proporcionar momentos enriquecedores se a olharmos com carinho. É assim que encaro games, cinema e todas as outras mídias que nos cercam. Tratando arte como arte, sem nunca perder o bom humor.