Conecte-se com a Torre

Especial Karatê Kid | Simplicidade marcante

Karatê Kid

Artigos

Especial Karatê Kid | Simplicidade marcante

Como um filho dos anos noventa, mais precisamente de 1998, não tive muito contato com os medalhões cinematográficos mais antigos em minha infância e adolescência, e por mais que eu esteja correndo atrás agora na vida adulta, ainda há muitos títulos que não tive a oportunidade de conferir. Nessa onda de assistir os clássicos, sejam eles filmes cults ou blockbusters, decidi finalmente dar uma chance para aquela franquia que se iniciou com o golpe da garça.

Esse texto contém pequenos spoilers de Karatê Kid 1, 2 e 3

Já vi muitas vezes o golpe clássico, mas por algum motivo imaginei que Karatê Kid – A Hora da Verdade (1984) seria um filme tosco, que fora um produto de seu tempo e já não se encaixaria nos dias de hoje. É verdade que o ritmo oitentista é palpável, com cenas curtas demais ou longas demais, porém fui surpreendido ao perceber que, no geral, o filme continua bem até hoje, triunfando em sua direção simples, mas não simplista, e a delicadeza de diálogos e atuações de Pat Morita e Ralph Macchio.

Em resumo, o primeiro Karatê Kid conta a história de Daniel LaRusso (Ralph Macchio), que junto de sua mãe se muda de Newark, Nova Jersey, para a Califórnia. Após conhecer a divertida Ali Mills (Elisabeth Shue), se vê ameaçado pelo ex namorado da garota, Johnny Lawrence (William Zabka) e pelo dojo de karatê Cobra Kai comandado pelo psicopata John Kreese (Martin Kove). Daniel aprende a se defender e junto de seu sensei, senhor Miyagi (Pat Morita), decidem botar um ponto final ao conflito.

Em minha ignorância imaginei que seria um filme repleto de cenas de ação, mas no geral temos pouquíssimas lutas até a sequência final. Temos perseguições e bullying, mas para um filme chamado O GAROTO DO KARATÊ imaginei que teríamos diversas cenas envolvendo a arte marcial. Mas veja bem, esta não é uma crítica negativa, é na verdade um elogio. Essa ideia de um filme recheado de porradaria partiu de uma concepção errada da minha parte. A franquia Karatê Kid é mais sobre a arte marcial como filosofia de vida do que simples socos e chutes. Não ouso dizer que se propõe a ser algo reflexivo ou complexo, mas que carrega uma camada positiva em suas lições.

Tais lições estão na boca do co-protagonista, senhor Miyagi. Inicialmente o sensei é apresentado como um “fixer guy”, ou seja, o responsável pela manutenção geral dos apartamentos. Se há problemas no chuveiro ou na pia, por exemplo, era o senhor Miyagi o salvador da pátria. O tropo do velho sábio, do mestre surpreendente, é tão antigo quanto a própria jornada do herói, o monomito. Vimos figuras assim em todas as formas de arte, seja no teatro, literatura e, obviamente, no cinema. Um exemplo clássico é o mestre Yoda em sua primeira aparição em O Império Contra Ataca.

E a estrutura é a mesma: um ser mais velho e aparentemente frágil, mas que após demonstrar uma grande força e sabedoria se vê solicitado pelo herói da história a ser seu mentor. Após um breve momento de relutância, o mestre aceita e embarca na jornada ao lado do herói. Figuras de mentores estão intrínsecas à nossa cultura, seja na ficção ou nas salas de aula, por isso a dinâmica professor e aluno funciona até hoje, pois de certa forma todos nós ocupamos ambos os papéis ao decorrer da vida.

É interessante observar detalhes que podem passar despercebidos em uma primeira assistida. São detalhes que apesar de pequenos demonstram o carinho que toda a equipe de produção, desde roteiro até atuação, tiveram com o filme. Como a metáfora da profissão do senhor Miyagi, um “consertador”, que encontra um garoto ao ponto de quebrar e o repara com uma firmeza gentil, metáfora essa até explicitada na cena em que o sensei conserta a bicicleta de LaRusso. Outro detalhe é de como a clássica bandana inicialmente foi usada como um pano para conter o sangramento da testa de Daniel após ser empurrado de uma colina, literalmente um item que antes fora usado como um símbolo de derrota, ao final do longa é transformado na personificação do esforço e perseverança do protagonista.

O ponto alto do filme e da franquia Karatê Kid é a relação aluno e professor. A dualidade de Miyagi/ LaRusso e Kreese/ Lawrence, e as diferentes formas de encarar a vida são o coração do filme. Há um consenso de que o personagem mais carismático é o senhor Miyagi, e é curioso imaginar que inicialmente Pat Morita foi recusado para o papel pelo seu histórico como comediante. Aos olhos do produtor esse histórico poderia enfraquecer o personagem, mas após novas audições o ator conseguiu o papel. E que baita decisão, afinal, Morita não foi indicado ao Oscar à toa.

Karatê Kid - A Hora da Verdade (1984)
“Como sei que está certo?” “Se vem de dentro está sempre certo”

Outra concepção que se provou completamente errada ao assistir o filme é de que Daniel seria o clássico perdedor fracote, um nerd excluído sem amigos e que mal saberia se comunicar. Mas LaRusso é um garoto extrovertido, carismático e que não tem medo de se aventurar em cantadas mequetrefes. Até mesmo antes de conhecer seu sensei ele já havia praticado karatê, o que é uma virada interessante com o que estou acostumado a ver em histórias desse tipo.

Daniel tem uma personalidade tão interessante que em certos momentos chega a ser um chato de galocha, dando pequenos chiliques. Em um desses chiliques vemos um tema que paira por todo o longa, mas nunca chega a ser aprofundado ou aproveitado realmente, que é a desigualdade social entre Daniel e Ali, um garoto pé rapado de Reseda e uma garota abastada de Encino. Esse não era o foco do filme, então entendo que não tenha ganhado tanto tempo de tela além da cena do Golf N’ Stuff, mas fico muito feliz de que o tema tenha sido aproveitado de forma inteligente na ótima série Cobra Kai.

E eu não poderia partir para o segundo filme sem antes falar do elemento mais bacana dele: o treinamento. Ao passar diversas “tarefas domésticas” a Daniel, como passar cera no carro, lixar o chão e pintar cercas, senhor Miyagi estabelece uma rotina pesada de exercícios físicos, que inicialmente soam ao protagonista como se seu sensei estivesse somente delegando tarefas diárias que não estava muito a fim de fazer. Em uma cena que, como sempre, destaca o talento de Morita, Miyagi demonstra que aquilo não é só uma série de atividades sem sentido, mas um treinamento de memória muscular para que Daniel assimile movimentos do karatê organicamente.

O próprio treinamento se revela como uma espécie de metáfora física, demonstrando na tela através dos movimentos de karatê como as ações mais simples de nossas vidas, os detalhes que parecem tão pequenos, podem trazer ensinamentos que levaremos para a vida toda.

Karatê Kid - A Hora da Verdade (1984)
Lawrence VS LaRusso

Karatê Kid 2 – A Hora da Verdade Continua foi lançado em 1986 e continua a jornada de Daniel-san e senhor Miyagi. A sequência inicial do filme se passa imediatamente após a final do campeonato de karatê de All Valley, e em mais uma demonstração de psicopatia, John Kreese tenta assassinar seu aluno pelos desdobramentos do filme anterior, mas Miyagi intervém e com um pequeno gesto transforma a situação tensa em uma piada, derrotando o vilão e encerrando a rivalidade com o Cobra Kai de uma vez por todas (ou quase isso).

O segundo longa tem foco principal em Miyagi, que volta para sua terra natal, Okinawa, ao saber que seu pai está à beira da morte. Acompanhado de Daniel, ele enfrenta mais do que somente a eventual perda familiar, mas também deve encarar um rival do passado, Sato Toguchi (Danny Kamekona). Obviamente não só o sensei tem desafios, mas Daniel também. O rival de Miyagi, Sato, tem um sobrinho chamado Chozen (Yuji Okumoto) que é utilizado como um Johnny Lawrence 2.0, ou seja, não tem lá muitas características além de sorrir e ser uma pedra no sapato dos mocinhos.

No primeiro filme há uma sequência tocante sobre o passado de Miyagi, envolvendo sua esposa e bebê. Em Karatê Kid 2 essa cena não é apagada ou ignorada, mas descobrimos que o sensei teve um outro grande amor em sua juventude, a sensível Yukie (Nobu McCarthy), pivô da rivalidade com Sato. A adição de Yukie é interessante por inserir uma nova camada a Miyagi, mas não vai muito além disso.

Outra personagem apresentada no longa é Kumiko, interpretada pela carismática Tamlyn Tomita. Kumiko é o novo interesse romântico de Daniel e assim como Yukie infelizmente é utilizada mais como um recurso do que uma personagem, pois o único motivo de sua concepção é ligar Daniel ao seu rival artificial, Chozen. O que é a mesma função de Ali no primeiro filme, ser o início da rivalidade entre LaRusso e Lawrence, porém a relação com Ali gera um efeito cascata. O interesse surge e o conflito é gerado e desenvolvido, já com Kumiko não existe uma ligação entre personagens, mas uma forçação de barra para que a luta final faça algum sentido.

Apesar dos momentos brilhantes, como o conceito de foco envolvendo a respiração, e uma tremenda sensibilidade na construção da relação entre aluno e professor, o segundo filme peca em estrutura, deixando os conflitos de alguns personagens enfraquecidos. A batalha entre Daniel e Chozen, por exemplo, é o encerramento do filme, mas é utilizado de maneira pobre. Nesse embate não há nenhuma motivação temática em tela. Parece que o filme todo foi levado para a batalha mortal entre Miyagi e Sato, mas quando esse conflito é resolvido não quiseram encerrar sem uma “luta dramática final”.

A resolução do conflito inicial e encerramento do filme com o embate dos alunos funcionaria muito bem se ao decorrer do longa entendêssemos mais a mente de Chozen e Daniel tivesse uma motivação mais interessante do que simplesmente salvar a garota que “ama”.

Apesar dessas questões, a luta final ganhou relevância pelo seu final interessante. Tendo em mente que nenhum golpe seria tão icônico como o do primeiro longa, decidiram investir em uma situação de humor que ao mesmo tempo resolve o conflito e realça o tema da narrativa, além de relacionar as atitudes de Miyagi no início do filme com o aprendizado de Daniel-san.

Karatê Kid 2 - A Hora da Verdade Continua (1986)
“Para uma pessoa sem perdão no coração, a vida é pior que a morte”

Chegamos ao terceiro filme que é, sem dúvidas, o mais fraco da trilogia. Karatê Kid 3 – O Desafio Final (1989) sofre muito com o ritmo e decisões criativas questionáveis, além de atuações abaixo do esperado. E se pararmos para pensar que Ralph Macchio nunca foi um bom ator, ficar abaixo do esperado é, no mínimo, complicado.

A história do longa é quase um remake do primeiro filme. Essa ideia de ser um filme espelho cativa muito, mas infelizmente nenhum ápice narrativo é alcançado, e por mais que seja um filme que me divertiu e tenho certo carinho, ao analisá-lo friamente é um título que beira o desastre.

Após chegarem de Okinawa, Daniel e Miyagi descobrem que o condomínio onde moravam foi vendido, então de uma hora para outra se vêem sem uma casa e, no caso do sensei, sem um emprego. LaRusso então decide investir em uma nova empresa, “As Arvorezinhas do Sr. Miyagi”, onde o mentor pode realizar seu sonho de vender árvores bonsai. Já é época da nova edição do campeonato de karatê de All Valley e enquanto Daniel quer competir, Miyagi não gosta nem um pouco da ideia. Enquanto isso, John Kreese, sensei do Cobra Kai, se vê falido e sem estudantes desde os eventos dos dois filmes anteriores e decide pedir ajuda a um amigo da época do Vietnã, o milionário Terry Silver (Thomas Ian Griffith), para alcançar sua vingança.

Esse resumo acima é mais longo do que deveria e tem elementos demais, assim como o filme.

Enquanto o segundo longa aprofunda Miyagi apresentando seu passado, no terceiro vemos finalmente o conflito entre os protagonistas, onde Daniel é tentado pelo “lado sombrio”. Desobediência é uma característica intrínseca à juventude, então era esperado ver um personagem cabeça dura como Daniel se desentendendo com o senhor Miyagi, mas imaginei que veríamos tal embate mais cedo na franquia.

O conflito dos dois protagonistas não é tão bem trabalhado como poderia, afinal, a única desestabilização que vemos é a de Daniel, Miyagi se mantém impassível, como se soubesse como tudo iria se desenrolar, logo, um elemento que poderia ser interessantíssimo se torna unilateral e sem impacto. E ainda há a questão de que boa parte desse desvio de caminho que Daniel toma é parte do plano desnecessariamente complicado de Kreese e Silver, o que enfraquece ainda mais o tão aguardado conflito entre aluno e professor.

Silver é o personagem que rouba o filme e dependendo de quem estiver assistindo isso pode ser muito bom ou muito ruim, já que a atuação de Griffith é exagerada de todas as formas possíveis. Aos meus olhos ele é um personagem icônico, mas diferentemente de outros da franquia ele é icônico por ser excêntrico, sem motivações e com planos mirabolantes, não por ser de fato um bom personagem.

Enquanto não é repetida a fórmula de interesse romântico, Jessica Andrews (Robyn Lively), nova amiga de Daniel é introduzida, mas não faz diferença alguma à trama. Novamente temos um vilão alá Johnny Lawrence/ Chozan, mas dessa vez com muito mais agressividade e menos sorrisinhos, o lutador profissional Mike Barnes (Sean Kanan) contratado por Silver para tornar a vida de LaRusso um inferno e convencê-lo a participar do campeonato de karatê de All Valley.

Além das belas analogias envolvendo as árvores bonsai, o filme não possui muitos pontos positivos para ser franco. E é curioso ver algo tão diferente, tão estranho, em Karatê Kid 3 já que toda a equipe responsável pelos dois filmes anteriores se manteve no terceiro longa. De uma forma embaçada e retorcida, de algum modo aquela relação tocante que nos ganha nos outros filmes ainda está ali, os ensinamentos, a filosofia, o carisma, mas talvez esse sentimento seja porque ele, como eu disse anteriormente, espelha o primeiro filme e isso provoca uma sensação de conforto, de algo já conhecido.

Karatê Kid 3 - O Desafio Final (1989)
LaRusso VS Barnes

Por mais que o segundo filme tenha suas falhas e o terceiro seja em todos os aspectos ultrapassado, vale muito a pena conferir a trilogia LaRusso, principalmente o primeiro filme que continua ótimo até hoje. De uma forma ou de outra o brilho do tema central da franquia, que é a relação entre professor e aluno, é sempre mantido.

Quando comecei essa franquia tinha algumas certezas que acabaram se mostrando meros preconceitos e conforme fui assistindo e parando para refletir me vi diante de uma trilogia que, apesar de passar longe de ser perfeita ou complexa, se mantém marcante em sua filosofia e ensinamentos. Aproveite que os três filmes estão disponíveis no catálogo da Netflix e dê uma conferida.

Mas será que existe Karatê Kid além de LaRusso? Fique ligado na Torre de Controle para a segunda parte desse texto, onde irei comentar sobre Karatê Kid 4 – A Nova Aventura (1994) e Karate Kid (2010).

A cultura pop pode nos proporcionar momentos enriquecedores se a olharmos com carinho. É assim que encaro games, cinema e todas as outras mídias que nos cercam. Tratando arte como arte, sem nunca perder o bom humor.

Comentários

Mais em Artigos

Topo