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Especial Karatê Kid | Potencial Desperdiçado

Imagem de Capa - Karatê Kid 4

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Especial Karatê Kid | Potencial Desperdiçado

Em 1994 chegou aos cinemas Karatê Kid 4 – A Nova Aventura. Uma tentativa de continuar a franquia, mas que fracassou tanto em crítica como em bilheteria. Um filme fracassar como Karatê Kid 4 fracassou não necessariamente é um indício da qualidade do filme, afinal, o contexto deve ser sempre analisado. Blade Runner e Clube da Luta são alguns exemplos de como diferentes fatores podem afetar o sucesso de um longa.

Continuando o nosso especial sobre Karatê Kid nos cinemas, é hora de falar dos outros dois filmes da franquia. Caso queira dar uma conferida no primeiro texto, clique aqui.

Esse texto contém spoilers de Karatê Kid 4 e Karatê Kid (2010)

Karatê Kid 3 – O Desafio Final (1989) é um longa ruim que beira o desastre, mas que entretém por continuar a história de Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e senhor Miyagi (Pat Morita), personagens queridos pelo espectador. O ponto alto da trilogia com Daniel é justamente a relação do aluno cabeça dura com o sábio mestre, e como sua amizade supera as barreiras da vida, essa conexão é um dos poucos elementos positivos do terceiro longa da franquia.

Em 1994 chegou aos cinemas Karatê Kid 4 – A Nova Aventura. Uma tentativa de continuar a franquia, mas que fracassou tanto em crítica como em bilheteria. Um filme fracassar como Karatê Kid 4 fracassou não necessariamente é um indício da qualidade do filme, afinal, o contexto deve ser sempre analisado. Blade Runner e Clube da Luta são alguns exemplos de como diferentes fatores podem afetar o sucesso de um longa.

Em Karatê Kid 4 somos apresentados a um novo personagem protagonista e Daniel-san não tem envolvimento algum com a trama. Substituir um queridinho dos fãs poderia ter causado desconforto, talvez até impactando a performance do filme. Outro ponto relevante é o novo personagem protagonista ser uma garota, Julie Pierce, interpretada por Hilary Swank. Nos últimos dez anos vimos um leve aumento no protagonismo feminino no cinema, assim como o aumento de protestos e discursos machistas contra tal movimento, então imaginar que o machismo da época tenha impactado o filme não é muito difícil.

Porém, por mais que esses dois fatores provavelmente tenham envolvimento com o desempenho do filme nos cinemas, Karatê Kid 4 é um desperdício do começo ao fim.

No novo longa, Sr. Miyagi é convidado a participar de um evento para honrar os veteranos de guerra. Durante o evento ele reencontra a viúva de seu antigo comandante, Louisa (Constance Towers), que o convida para visitá-la. É quando Miyagi conhece a neta de seu amigo de guerra, Julie Pierce, uma garota que perdeu os pais recentemente e não está sabendo lidar com o luto e todos os dramas adolescentes que sua idade traz, levando a um comportamento rebelde e conflituoso com a avó.

É um filme frustrante pois a relação de Miyagi e Julie é legitimamente interessante em certos momentos, porém essa relação parte de um argumento fraquíssimo. O sensei pede à avó de Julie que passe um tempo em sua casa na Califórnia enquanto ele ensina a garota sobre respeito e disciplina para que a relação entre elas melhore e a garota consiga lidar com a raiva por ter perdido os pais de repente. Como ele pretende melhorar a relação entre neta e avó se Louisa não aparece mais no filme? Não há nenhum furo de roteiro de fato, mas é repleto de inconsistências que minam a boa vontade do espectador pouco a pouco, quase como uma sessão de tortura.

Karatê Kid 4 não consegue decidir seu tema central, se é sobre Julie aprender a respeitar o próximo e a si mesma para se tornar uma pessoa melhor ou se é sobre lidar com o turbilhão de sentimentos que vêm com o luto. É totalmente plausível contar uma história que une ambos os temas, traçando paralelos e mesclando os aprendizados dos personagens, mas o roteirista Mark Lee e o diretor Christopher Cain infelizmente não conseguiram atingir esse objetivo e, sinceramente, é visível que não se esforçaram muito para tal.

É comum relevar os pontos mais fracos de um filme quando os pontos fortes são cativantes. A coreografia de luta da trilogia LaRusso não é boa, por exemplo, mas por estarem cercados de temas interessantes, relevamos. O filme de Cain é tão mal dirigido e mal enquadrado que tentar entender os movimentos nas cenas de ação é um verdadeiro desafio. Sem falar nas sequências que levam ninguém a lugar nenhum, que poderiam facilmente ser cortadas do longa.

Julie Pierce poderia ser uma protagonista a altura do carinho que os fãs têm por Daniel-san. É uma garota decidida, rebelde, e por conta da atuação de Swank, muito carismática. Há muita química entre a atriz e Pat Morita, o que rende momentos ótimos entre sensei e aluna, como a cena em que Miyagi ensina a garota a dançar através do karatê, uma belíssima e singela virada do que vemos no primeiro filme. Mas apesar da bela cena que se inspira no primeiro longa, Karatê Kid 4 cai na armadilha de desnecessariamente repetir batidas do filme clássico, reprisando um dos vários erros de O Desafio Final.

O conflito do filme parte da obsessão que o valentão Ned (Michael Cavalieri) tem por Julie. Ned faz parte do grupo Alpha Elite, uma fraternidade responsável por manter a segurança dos alunos, e após Julie recusar um encontro romântico, o rapaz age com agressividade. Após ser mandada para a diretoria por conta de Ned, Julie conhece Erick McGowen (Chris Conrad), outro membro do Alpha Elite, mas que diferentemente de Ned e dos outros integrantes do grupo, se mostra uma boa pessoa.

Ao longo do filme percebemos que o problema de comportamento do Alpha Elite parte da filosofia de vida de seu líder, Coronel Dungan (Michael Ironside), que preza a agressividade e… bem, acho que a esse ponto você já percebeu o que quero dizer. É uma reprise do primeiro filme.

Além de Julie, que é mais interessante pela atuação de Swank do que pelo texto, e Miyagi, que tem nosso carinho pelos outros três filmes, Karatê Kid 4 tem um sério problema com personagens. Os monges introduzidos quase na metade do filme teoricamente são importantes para o desenvolvimento da protagonista, mas com a indecisão do longa de se decidir sobre o que quer falar, se tornam só mais um potencial desperdiçado. Pelo menos eles se transformam em um ótimo alívio cômico na segunda metade.

Eric McGowen, interesse romântico de Julie, é um link direto entre a protagonista e os antagonistas, o que poderia gerar conflitos interessantes, mas que não influencia em nada na trama. É um personagem que tem uma função, tem oportunidades para brilhar, mas que é só um recurso para que Julie tenha seu “confronto final”.

Karatê Kid 4 foi lançado há mais de 25 anos, então condená-lo por certos detalhes problemáticos pode parecer anacronismo. Porém, ignorar seus problemas não é o caminho ideal e é inegável o desconforto ao ver Ned e o Alpha Elite constantemente encurralando Julie, literalmente a colocando contra a parede e até mesmo a perseguindo durante a noite em uma escola vazia.

Ao beirar o terror em algumas cenas a resolução de derrotar o vilão, Coronel Dungan, e ter os integrantes do Alpha se virando contra ele, é forçada e, muito pior que isso, irrelevante, pois o conflito entre Julie e Ned é claramente uma situação de assédio. Dar alguns golpes de karatê parece uma solução infantil frente ao problema central.

Não é uma questão de ser “desconstruído” ou “lacrar”, mas de ter sensibilidade com o que é mostrado em tela. Johnny Lawrence era claramente uma péssima pessoa para se relacionar na época de escola, mas em momento algum ele faz menção a violência física contra Ali Mills no primeiro filme da franquia. Se houve a escolha do roteirista e diretor de colocar cenas delicadas em Karatê Kid 4, que também incluíssem o reconhecimento desses problemas e uma conclusão minimamente convincente quanto aos assédios.

O quarto filme da franquia apresenta uma protagonista carismática, mas esquece de dar um sentido claro à sua jornada, além de apresentar personagens fracos em meio a imitações mal feitas do primeiro filme. É uma história que não só desliza, mas que tropeça de uma forma tão feia que cai no esquecimento, pois sequer teve a ousadia de utilizar uma personagem tão interessante como Julie em uma história original.

Karatê Kid 4 tinha potencial imenso, mas com seu texto fraco e direção confusa, se sacramenta como o pior título da série, feito admirável frente ao péssimo Karatê Kid 3, que apesar de tudo, pelo menos tinha algum coração.

Senhor Miyagi e Julie Pierce - Karatê Kid 4 - Uma Nova Aventura
Senhor Miyagi e Julie Pierce – Karatê Kid 4 – Uma Nova Aventura

Karatê Kid (2010) é dirigido por Harald Zwart e roteirizado por Robert Mark Kamen, mesmo roteirista dos filmes com Ralph Macchio. O longa tem a proposta de apresentar a mesma história que foi contada em 1984, mas com uma roupagem moderna, corrigindo os problemas da época como coreografia e ritmo narrativo. Em estrutura é idêntico ao filme original, desde a mudança para um lugar distante, neste caso a China, até o conflito com um grupo de alunos de artes marciais. São poucas as cenas originais do remake, pois boa parte do filme é composta por refilmagens diretas ou indiretas de sequências do clássico oitentista.

Karatê Kid 3 e 4 falham por tentar resgatar o sentimento do primeiro filme, mas o fazem sendo repetitivos e pouco originais. O filme de 2010 apresentar a mesma estrutura não é um problema por si só, já que existem diversos tipos de remake. Há aqueles títulos que decidem mudar completamente a estrutura e prezar pela essência do original, e há outros que decidem repetir tudo, somente com o objetivo de modernização. O maior problema desse remake é ficar no muro entre ser uma modernização ou uma reimaginação.

O primeiro ponto é a arte marcial utilizada, o kung fu. Essa é uma escolha que levanta sobrancelhas logo de cara por conta do próprio nome do longa. É válido lembrar que os filmes nunca foram sobre a arte marcial, mas sobre a relação de professores e alunos, e como é possível aprender sobre a vida com pequenos detalhes. Porém, é perceptível que a mudança de utilização de signos chineses em vez de japoneses, foi puramente por uma questão comercial.

É mais uma das tentativas de Hollywood tentar encantar o público chinês, que é visto como uma mina de ouro quando o assunto é cinema. Podemos fazer um exercício simples, e imaginar que Dre Parker (Jaden Smith), em vez de ir para a China aprender kung fu, foi para o Japão e aprendeu Karatê. Nada do filme se perderia, o que é uma espada de dois gumes, pois não prejudica o filme, porém não adiciona nada significativo.

Outra mudança pouco significativa é a introdução dos novos personagens. Dre Parker é um garoto um pouco mais descolado que Daniel LaRusso, mas o carisma e o jeito cabeça dura continuam ali. Jaden Smith dá muito mais maneirismos a seu personagem, mas não ofenderia o público se fosse dado o papel do próprio Daniel Larusso. O mesmo se repete com o senhor Han (Jackie Chan), um mestre com ensinamentos valiosos e um passado triste. Se escolheram utilizar novos personagens, que dessem personalidades e backgrounds totalmente diferentes.

O que vemos é a reutilização dos personagens que já conhecemos, mas com uma ou outra característica mais ou menos acentuada. A personagem que mais se difere de sua contraparte original é Sherry Parker (Taraji P. Henson) como a mãe de Dre, tendo um comportamento mais incisivo com o garoto e aparecendo mais em tela, mas isso não ocorre com todos do elenco. Dre é um Daniel mais extrovertido, Han é um Miyagi menos piadista, Mestre Li (Yu Rongguang) é um Kreese menos psicopata e assim por diante.

O conflito entre Dre e seu antagonista, Cheng (Zhenwei Wang), também segue a fórmula pré-estabelecida: um garoto ciumento que não suporta ver a sua “amada” próxima a outra pessoa. Com a diferença que o bullie nunca chegou a ser realmente o namorado de Mei Ying (Wenwen Han), o que, assim como diversas escolhas do filme, não traz mudanças significativas.
Mas apesar de serem personagens reutilizados com novos nomes desnecessários, isso não significa que a relação entre eles não seja bem trabalhada.

Há uma ótima química entre Dre e os personagens de seu núcleo, e o público consegue facilmente odiar os antagonistas. Uma das poucas adições em comparação ao original é o desenvolvimento do interesse romântico de Dre, Mei Ying, uma garota com pais rigorosos e, diferente de Ali Mills, com um objetivo claro além de ser par do protagonista.

A relação entre Dre e Mr. Han é o ponto alto do filme. O mestre ensina uma valiosa lição sobre respeito e isso é refletido nas atitudes do garoto, explicitadas nas divertidas cenas de treinamento com o casaco. As atuações de Jaden Smith e Jackie Chan chegam ao seu ápice na belíssima cena envolvendo o passado de Mr. Han, que assim como Miyagi, perdeu a família, mas que esteve envolvido diretamente no acidente que os matou, transformando-o em um personagem cheio de culpa e mais introspectivo.

Infelizmente Mr. Han não consegue brilhar tanto no restante do filme, principalmente por diversas vezes entregar as mesmíssimas falas de Miyagi, o que enfraquece o personagem e reforça o ponto de não haver uma decisão entre ser uma modernização ou reimaginação, e opta por ser uma mesclagem mal executada.

Como citado, a expansão das figuras da mãe e interesse romântico do protagonista é muito bem vinda, mas nem todo o conteúdo original do filme consegue ser tão interessante. No clímax da batalha entre Dre e Cheng, o protagonista, já machucado por um movimento desleal do adversário, utiliza uma técnica de hipnose que observou durante o treinamento. Já é um pouco decepcionante que a técnica em questão não tenha sido um ensinamento de Han, mas de uma figurante que sequer tem o nome citado, porém o problema em questão é o golpe que o garoto usa para finalizar a luta.

Karatê Kid 2 utiliza brilhantemente um golpe simples e finaliza a batalha com uma piada estabelecida no início do filme. Karatê Kid 3 nem ao menos tenta focar no golpe, mas no tema que está sendo abordado. Assim como Karatê Kid 4, o remake tenta ao máximo se desvencilhar do golpe da garça, mas ao menos o quarto filme da franquia nos mostra um golpe possível, enquanto o filme de 2010 traz um movimento fantasioso, elemento que em momento algum foi trazido à tona durante o longa.

Karatê Kid (2010) nos entrega personagens requentados em uma trama cativante, mas batida, em um filme com boa coreografia e direção, exceto pelos movimentos de câmera no clímax, além de um golpe final que deveria ficar marcado na mente de uma geração, mas que foi, e será, facilmente esquecido. Assim como Karatê Kid 4, o remake de 2010 tem muito potencial, mas uma fraca execução.

Não é de forma alguma um filme ruim. É uma história padrão de superação que ainda cativa, principalmente o público mais jovem que não teve contato com o original. Mas é um remake que infelizmente fica no muro e por isso não tem força suficiente para expressar a sua própria personalidade, se tornando mais um filme da franquia a ficar para sempre na sombra do golpe da garça.

Dre Parker e Mr. Han - Karatê Kid (2010)
Dre Parker e Mr. Han – Karatê Kid (2010)
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A cultura pop pode nos proporcionar momentos enriquecedores se a olharmos com carinho. É assim que encaro games, cinema e todas as outras mídias que nos cercam. Tratando arte como arte, sem nunca perder o bom humor.

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