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Preview Especial | Skatemasta Tcheco

 

Faz um tempo desde que comecei a trazer artigos sobre jogos indie nacionais aqui na Torre, e sem dúvida alguma, um dos jogos sobre o qual eu mais queria falar era Skatemasta Tcheco. Na verdade, não apenas sobre o jogo em si, mas sobre muito do que o cerca, seu personagem, seu criador e de certa forma, falar um pouco mais do “jogo além do jogo” que é o desenvolvimento de videogames. E eu vou começar do ponto no qual eu conheci o Marcelo Barbosa, criador do personagem Tcheco e dos jogos Tcheco no Castelo do Sarney (ou Tcheco in the Castle of Lucio – é uma história complicada), em um fórum de jogos há uns anos atrás.

Eu sempre via posts do Marcelo na área reservada a retrogaming, e como não poderia ser diferente, conversamos sobre o NES, paletas de cores e outras coisas mais. O avatar dele era de um personagem carismático, que parecia ter saído de um jogo perdido do final dos anos 80 ou de uma campanha publicitária de algum produto visando o público infantil, como iogurtes ou achocolatados. Mal sabia eu que aquele personagem, o Tcheco, tinha uma história muito mais interessante do que eu imaginei olhando para o avatar do Marcelo: Tcheco era a estrela de uma série animada, criada pelo próprio Marcelo, e que foi ao ar em 1999, no Canal Comunitário de Porto Alegre, onde teve exibição regular. É possível encontrar vídeos da série animada no Youtube e eles possuem um humor muito peculiar, que me agradou bastante. No entanto, eu só fui assistir aos episódios depois de ver o trailer do primeiro jogo do Tcheco, que é um dos trailers mais legitimamente engraçados que eu já vi até hoje.

Nessas conversas em posts do fórum, eu perguntei ao Marcelo como ele estava desenvolvendo o jogo (na época era sobre o primeiro jogo), já que eu tinha/tenho interesse na ideia de desenvolver jogos, mas não sou capaz de programar para salvar minha vida. E foi aí que ele me explicou que usava uma ferramenta de desenvolvimento que era bem amigável a quem não era entendido de programação – como ele próprio – e que era capaz de resultados excelentes. Deste modo o Marcelo me apresentou o Scirra Construct, e acabou se tornando mais do que “um cara do fórum que tá desenvolvendo um jogo legal”, e passou a ser uma pessoa legitimamente inspiradora, já que mesmo sem ter estudado programação e game design de formas “ortodoxas”, Marcelo estava mostrando que com as ferramentas certas ele – e qualquer outro com o mesmo nível de dedicação – era capaz de fazer um jogo de seu personagem, movido pela sua paixão e determinação.

 

 

Só que antes de desenvolver seus próprios jogos, Marcelo já fazia outros projetos ligados à jogos: ele é uma figura bem conhecida da cena de romhacking, onde é reconhecido pela alcunha de Macbee. Por conta disso, ele acumulou um conhecimento incrível sobre plataformas antigas, em especial sobre o NES, o que sem dúvida foi primordial para o trabalho gráfico feito por ele em seus jogos, que buscam respeitar limitações de plataformas como NES e Master System tanto quanto possível, de forma a passar uma sensação retrô muito mais autêntica e contextualizada em seus jogos do que o que costumamos ver por aí em jogos pseudo-retro. E quando eu falo jogos, no plural, não me refiro apenas aos jogos do Tcheco –  seja o já lançado Tcheco no Castelo do Sarney ou o Skatemasta Tcheco – mas também a um outro projeto ambicioso no qual Marcelo fez parte: Lucky Penguin.

Seu primeiro jogo foi lançado pelo preço de 99 centavos na Steam, pois Marcelo tinha a intenção de fazer um jogo com preço realmente acessível, que era muito mais um projeto fruto de uma paixão pessoal do que propriamente um projeto mais “formal” e comercial visando lucros. Tcheco no Castelo do Sarney foi muito bem recebido pelos jogadores, e os motivos são vários e vão desde o preço simbólico ao design genuinamente retrô, passando pelo óbvio carisma do personagem e pelos incontáveis easter eggs (que os gringos muito provavelmente não vão entender, como uma referência ao grito de “forte bomba!” tirado de Ronaldinho Soccer), que recheiam o jogo cujo nível de desafio é bem alto, como os jogos de NES costumavam ser, em sua grande maioria.

 

 

Com o sucesso do primeiro jogo, lançado em 2015, Marcelo começou a trabalhar em sua sequência, intitulada Skatemasta Tcheco, cujo gameplay é bem reminiscente da mecânica  do skateboard de Adventure Island, em que todas as fases seguem o formato de autoscrolling (fases cuja progressão horizontal ou vertical do plano de jogo acontece em ritmo constante e independente do jogador, como por exemplo, quase todos os jogos “de navinha” ou as fases de jogos do Mario em que o “cenário anda sozinho“), e o jogador precisa sempre estar se reposicionando na tela para desviar de obstáculos, alcançar plataformas e coletar itens, bem como para atacar os inimigos ou mesmo desviar de seus ataques.

Só que esta breve descrição, técnica e fria das mecânicas e design de Skatemasta Tcheco, não faz justiça à genialidade deste jogo. Não poderia ser um jogo do Tcheco sem duas coisas: um monte de easter eggs baseados na cultura nacional e em memes, e um humor que é tão inocente e ao mesmo tempo pontual, que vai te fazer rir mesmo quando você está enfrentando um boss ou uma seção mais desafiadora, de forma a tornar sua experiência com o jogo em algo muito mais interessante e único do que pode se imaginar em um primeiro momento. A começar pelos nomes das fases, em que temos o “Bingo Clandestino”, “Litoral Gaúcho”, “Chegada do Papai Noel” e o meu preferido, o “Parque da Sônica”. Todas estas fases contam com chefes engraçados e diversas referências nos cenários, e tudo isso é feito de forma a respeitar – dentro do possível – as limitações do NES.

 

 

Além disso, Tcheco tem mais do que apenas seu skate, sua coragem infantil e seu domínio da arte da violência (algo que ele deixou bem claro no trailer de Tcheco no Castelo do Sarney, a propósito). Em Skatemasta Tcheco, o garoto terá o auxílio de outras estrelas de indie games nacionais, como o pato Dandy (de Dandy & Randy, sobre o qual falei aqui), a rebelde do futuro, Mavra, de Blazing Chrome (criado por outros gênios do gamedev nacional, Danilo Dias e Thais Weiller, do estúdio Joymasher) a até mesmo o Nestorzim, o pinguim protagonista de Lucky Penguin, que como já foi dito, é outro jogo no qual Marcelo Barbosa participou (e que inclusive recebeu lançamento em mídia física para o Famicom), entre vários outros.

Apesar de Skatemasta Tcheco ainda não ter uma data oficial de lançamento, eu pude jogar e testar algumas builds do jogo, cedidas pelo próprio Marcelo, e minhas impressões não poderiam ser mais positivas. Apesar de nem todas as fases estarem disponíveis na build mais atual a qual tive acesso, eu me diverti horrores com o jogo, o que por si só me fez ter certeza de que é um jogo que vou comprar no lançamento, como também pretendo adquirir algumas chaves extra de acesso para doar para algumas pessoas, tanto como forma de apoio ao trabalho do Marcelo, quanto pelo intuito de disponibilizar este jogo para mais pessoas, pois mesmo sendo uma produção tecnicamente amadora (uma vez que Marcelo não possui um estúdio próprio e faz seus jogos movido pela sua paixão), Skatemasta Tcheco é um jogo que claramente merece muita atenção, algo que nem sempre é exatamente fácil na cena indie, ainda mais em um momento de ascensão do mercado, com “indies de luxo” sendo cada vez mais presentes e bem recebidos pelo público geral – incluindo aquela parcela do público que a poucos anos atrás torcia o nariz pra indies, ainda mais se fossem produções nacionais.

Eu prometo que retorno com um outro texto – não tão longo, eu sei – quando Skatemasta Tcheco for lançado, trazendo uma análise sobre o jogo, e talvez até promovendo um sorteio de chaves de acesso (se acontecer, farei isso na minha conta do Twitter). Por enquanto é isso: espero que o artigo tenha sido útil no que tange a informação não apenas relativa ao jogo, mas também em relação à cena de desenvolvimento de jogos independentes no Brasil, que vai desde trabalhos maiores, feitos por estúdios grandes e com diversos desenvolvedores, até jogos como Skatemasta Tcheco, feitos por uma pessoa ou um pequeno grupo, de forma quase amadora – tanto no sentido não profissional da palavra, quanto no sentido de amor pelo que se faz. Há centenas de jogos sendo desenvolvidos no país, por uma quantidade inacreditável de pessoas talentosas e capazes, e sempre que possível, eu vou trazer artigos sobre esses jogos, sempre tentando ir um pouco além do jogo em si, falando mais sobre as pessoas que os fazem.

Ah, e você pode encontrar o Marcelo no Twitter para acompanhar o trabalho dele em @MCBRemakes, e claro, o Tcheco me pediu pra lembrar que ele também possui sua própria conta no Twitter (@tchecoforevis) pois ele também entende dessas coisas de redes sociais, e pediu pra eu dizer que Skatemasta Tcheco já pode ser adicionado à sua lista de desejos na Steam se você clicar aqui, onde você pode assistir o trailer do jogo também (ele me pediu muito gentilmente pra falar isso, ele nem me ameaçou com o skate ou algo parecido, eu juro).

 

Jogo os jogos que você não conhece e os que já esqueceu que existem. Sou fascinado pelo Famicom e meu forte são retrocoisas. Escrevo sobre joguinhos no Torre de Controle. Falo sobre jogos e NFL no meu Twitter @ramidraws. Don't Believe the Hype!