Death Stranding: por que fazemos o que fazemos?

Death Stranding é um jogo inesquecível: muito além de entregas solitárias em um mundo pós-apocalíptico, na perspectiva de Sam Porter Bridges podemos compreender o verdadeiro motivo pelo qual fazemos o que fazemos.

O texto contém spoilers e é destinado para players que já concluíram a jornada.


“Certa vez houve uma explosão: uma explosão que originou o tempo e o espaço. Certa vez houve uma explosão: uma explosão que fez o planeta girar naquele espaço. Certa vez houve uma explosão: uma explosão que fez surgir a vida como conhecemos. E então veio outra explosão.”

No universo do game, a última explosão deu origem ao ‘Death Stranding’ (em português, algo como ‘Encalhe da Morte’), evento misterioso que dá nome ao título escrito e dirigido por Hideo Kojima. Com a frase, tem início uma jornada de longas horas que, apesar de um início propositalmente complexo, vale cada segundo.

Introdução

O Death Stranding ocorreu em uma realidade similar a nossa: conectada e tecnologicamente avançada. No entanto, tudo vira de ponta-cabeça quando esse mundo assiste  —  de mãos atadas  —  à uma série de explosões que produziram obliterações, crateras e mortes ao redor do planeta.

A partir do evento catastrófico, um novo elemento cristalino  —  com formato de mão humana  —  passou a ser encontrado no solo e em áreas de maior altitude: o ‘Chiralium’, substância que produz distúrbios psiquiátricos em humanos aos quais mantém contato prolongado, como os ‘MULAs’.

A presença acentuada de partículas desses cristais na atmosfera produziu nuvens que deram origem a outro fenômeno: a ‘Timefall’ (‘Chuva Temporal’), um novo tipo de precipitação que acelera o processo de envelhecimento e deterioração de tudo o que toca, seja orgânico ou inorgânico.

Soma-se a isto o surgimento de ‘Beaches Things’ ou ‘BTs’ (em português: ‘Entidades Praianas’ ou ‘EPs’): criaturas invisíveis, compostas por antimatéria, presas ao solo por cordões umbilicais. Os EPs atuam em uma espécie de ciclo vicioso, que envolve a tentativa de dominar e invadir a matéria (corpo humano) para retornar à vida.

Nesse universo, o contato entre matéria e antimatéria produz obliterações e, consecutivamente, a destruição de cidades e populações inteiras. Por esse motivo, os sobreviventes pós-Death Stranding se autoimpuseram à vida em reclusão: em construções subterrâneas (semelhantes à bunkers), com inúmeras privações, mas fora do alcance de EP’s  — tudo para evitar que o caos desconhecido se replicasse.

Através da jornada, descobrimos o que foi o Death Stranding: um evento cíclico e temporal de extinção, que já teria ocorrido cinco vezes — em eras distintas — e extinguido inúmeras formas de vida no planeta. O fenômeno tem início com o nascimento de um ser denominado ‘Entidade de Extinção’, responsável por alavancar o processo que culmina em um novo período geológico.

Conhecemos o mundo pós-Death Stranding na perspectiva de Sam Porter Bridges: um homem solitário, emocionalmente fragilizado, portador de afefobia (síndrome de desconforto ao toque) e habilidades especiais. Sam serve à sociedade como um carregador experiente que, entre uma entrega e outra, atravessa o país para implantar uma rede de transferência de dados.

Um ponto alto desse universo é a amplitude de teorias científicas e filosóficas que fundamentam o enredo  —  e que, na lógica ficcional, possuem grande consistência. É interessante como, à medida que o jogador encontra informações e reflete sobre o mundo caótico e misterioso de Sam, o estranho se torna comum, e o surreal, crível.

Outro ponto alto é a trilha sonora. Além da composição geral desenvolvida por Ludvig Forssell, três bandas foram convidadas para compartilhar  —  e compor originalmente — canções para o game: Chvrches, Low Roar e Silent Poets. O resultado dessa junção é primoroso!

Em Death Stranding, a música é quase um personagem, surgindo em momentos específicos de uma caminhada ou em áreas secretas do mapa. Também é possível reproduzir uma playlist em bases construídas e no quarto de Sam.

É sempre uma experiência singular quando este ‘personagem’ aparece, especialmente porque há claras referências entre a letra de cada canção e a história que nos é apresentada. Alguns exemplos:

  • Don’t be so serious (parece dialogar, com Sam, sobre suas fragilidades e reclusão);
  • Asylums for the feeling (sobre a luta contra a depressão e a importância de contar com alguém);
  • I’ll Keep Coming (uma referência ao início do ‘Death Stranding’, trazido pela ‘Entidade de Extinção’);
  • BB Theme (uma declaração do sentimento motriz da narrativa, desenvolvida com perfeição para o fechamento da jornada);
  • Almost nothing (sobre o verdadeiro amor e decisões).

Seria possível falar muito mais sobre outros detalhes e teorias desse universo: Bridge Babies, DOOMs, matrimortas, a Praia, Rede Quiral, etc. Contudo, esse texto não é exatamente sobre tais assuntos.


Por que fazemos o que fazemos?

Em Death Stranding, somos inseridos em um contexto no qual o ciclo natural da vida foi rompido, gerando consequências catastróficas para a humanidade. Na perspectiva do protagonista, iniciamos uma jornada que objetiva a reconstrução de um mundo fragmentado, a começar pelos Estados Unidos da América.

Para alguns jogadores, a mensagem central do game  —  “o futuro está em suas mãos”  —  pode soar honorável e inspiradora. Para outros, um tanto clichê e ‘americanóide’, visto que surge acompanhada de frases como “o que a América significa para você?” e “somos mais que uma nação, um símbolo de esperança e liberdade”.

Sim, adentrar em uma jornada que faz referência constante à “reconstrução da América” parece genérico demais, especialmente porque Death Stranding foi desenvolvido por um autor nipônico.

No entanto, se engana quem acredita que a motivação de Sam emana do amor pela “América”. O país é, tão somente, um pano de fundo para a narrativa. E, apesar dos personagens discursarem sobre a reconstrução do país  —  e contribuírem para esse propósito  —  nenhum deles age, efetivamente, por essa motivação. Sam, por exemplo, diz abertamente: “A América acabou” e “Não precisamos de um país. Não mais”.

Sam, Amelie, Cliff, Fragile, Deadman, Die-Hardman, Heartman, Higgs e Mama possuem algo em comum: suas jornadas foram determinadas pelo impacto de outra pessoa em suas vidas.

Amelie, a ‘Entidade de Extinção’, teria um único objetivo em sua jornada: trazer a extinção em massa.

Contudo, a personagem desperta para uma inesperada compaixão pela humanidade ao salvar a vida de um bebê, à beira da morte, em sua Praia  —  o próprio Sam. Ao salvá-lo, Amelie rompe o ciclo natural da vida e desperta o Death Stranding. A partir disso, a personagem vive um dualismo profundo: ela se sente chamada à executar a extinção, mas se compadece ao enxergar, nas pessoas, uma luta incansável por sobrevivência.

Amelie não poderia salvar a humanidade, mas conseguiria influenciar alguém a lutar por isto em seu lugar: Sam, o bebê que mudou seu destino. Por ele, Amelie aceita se isolar e adiar a extinção em massa.


Cliff (Clifford Unger), o personagem mais intrigante da história, era um veterano de guerra antes do Death Stranding. Após um acidente no qual sua esposa é acometida por morte cerebral, Cliff é separado de seu filho, recém-nascido, por um projeto da Bridges em nome da “reconstrução da América”: o desenvolvimento de ‘BBs’ (Bridge Babies).

Ao tentar fugir da corporação com o bebê nos braços, Cliff é morto a tiros. Naquele momento, a morte o separou de quem mais amava  —  e a quem destinava uma bela canção de ninar:

“Veja o pôr do sol, o dia está terminando,
Deixe esse bocejo sair, não há como fingir, 
Eu irei te abraçar e te proteger,
Então deixe o amor te aquecer até o amanhecer. 
Eu ficarei com você, do seu lado, então feche os seus olhos cansados, 
Vou esperar e em breve verei seu sorriso em um sonho, 
E eu não vou acordar antes de você ir,
Eu ainda ouço o seu coração bater.”

O BB era Sam, que também foi atingido pela bala que matou seu pai. No entanto, Amelie interviu pelo recém-nascido na Praia, rompendo o ciclo natural da vida. Com o ato, Sam sobreviveu, mas Cliff não pôde fazer passagem para o mundo dos mortos.

A narrativa nos mostra que o sofrimento experienciado pelo ex-militar foi tão grande que, após sua morte, ele alcançou a habilidade de “emaranhar Praias” e reproduzir cenários de guerra em outras dimensões. Atormentado pela perda, Cliff atraia inimigos para ambientes cíclicos de violência, onde conjurava soldados e armas para atacá-los. Lá, o homem clamava incansavelmente por seu bebê.

Ao reencontrar seu filho, Cliff pôde descansar em paz ao dizer “você é Sam Bridges, o meu filho, a minha ponte para o futuro”.


Higgs (Higgs Monaghan), o homem da máscara dourada, é o líder dos ‘Homo Demens’: grupo separatista formado por soldados contaminados por Chiralium, conhecido por ações terroristas no mundo pós-Death Stranding.

Higgs é um portador de DOOMs elevados que, no passado, contribuiu para a reconstrução da América como um transportador da Fragile Express. Naquele tempo, ele almejava deixar um legado além de si mesmo no mundo. Entretanto, ao conhecer Amelie, Higgs teria ficado obcecado pelo poder da Entidade. Ao compreender a realidade do Death Stranding, o entregador conclui que não faria sentido lutar contra o inevitável: o fim de tudo. Então decide, a partir desse contato, ser um agente propagador do caos  —  um impiedoso torturador.

De entregador à terrorista: o que explica a mudança radical do personagem? A verdade é que o ódio e a violência não surgiram por uma eventualidade na vida de Higgs. Os sentimentos perversos estavam, apenas, adormecidos.

Através da jornada de Sam, descobrimos informações sobre o passado de Higgs: seu verdadeiro nome era Peter Englert. Ele foi um garoto órfão, criado por um tio violento que se negava a responder perguntas sobre o mundo exterior. Qualquer questionamento ou tentativa de sair do abrigo, por parte de Peter, refletia em agressões físicas e verbais de seu tio. Higgs cresceu sem amigos, amor ou família. Tudo se resumiu a opressão e violência.

Em uma última entrega no endereço de Peter, Sam compreende o mistério e consegue entrar no quarto do vilão. Lá, é possível encontrar diversas informações sobre seus alvos e planos violentos  —  tudo envolto em solidão, delírio e revolta.


Em Death Stranding, todos os personagem têm suas jornadas movidas por alguém: Fragile deu continuidade ao sonho de seu pai (fundador da Fragile Express) que acreditava na conexão das pessoas. Mama, a grande cientista, se envolveu profundamente com o Death Stranding após se tornar mãe de uma ‘Entidade Praiana’ recém-nascida. Deadman, o médico, se uniu à UCA para se sentir humano. Die-Hardman, o segundo na hierarquia da Bridges, serviu fielmente aos propósitos da empresa por amor e lealdade à fundadora. Heartman, o brilhante pesquisador, se submetia à paradas cardíacas constantes a fim de procurar por sua família na Praia.

Na prática, a América não importava. Contudo, alguém importava demais para cada um deles.


Sam Porter Bridges: o homem que faz entregas, a ponte para o futuro

No passado, Sam teve a vida profundamente marcada por um incidente: o suicídio de sua esposa, Lucy Strand, atormentada pela gravidez de uma portadora de DOOMs. Com o ato, uma obliteração foi produzida e a cidade (UCA-01–0C) foi completamente destruída. Sam foi o único sobrevivente, devido à condição de ‘repatriado’ (imortalidade). Naquele momento, ele perdeu quem mais amava: sua esposa, Lucy, e a filha, a quem chamaria de Louise.

Diante de julgamentos externos por ser o único sobrevivente de uma grande tragédia, o personagem decide se isolar. Por anos, o protagonista precisou enfrentar a depressão e o luto sozinho, longe de qualquer suporte familiar ou profissional. Para ele, a perda era irreparável.

Anos depois, Sam é encontrado e convidado por Bridget para o projeto de implantação da Rede Quiral. Mesmo contrariado, ele aceita colaborar devido ao forte vínculo com Amelie.

Ao longo da jornada, Sam tem questionamentos. Ele se dispõe a ajudar pessoas que dependem da UCA (United Cities of America) — assim como outros sobreviventes isolados pelo país mas não vê sentido na reconstrução de uma nação. Afinal, o mundo já havia lhe tirado tudo o que um dia importou.

Felizmente, algo transformou a jornada do carregador: o amor desenvolvido por aquilo que deveria ser, apenas, um equipamento  —  o Bridge Baby que carregava, a quem apelidou carinhosamente de Lou.

Sam cuida de Lou como um bom pai: balança, brinca, nina e dá banho. Lou, por sua vez, interage como um bom bebê: bate palmas, chora, dorme e gargalha. O vínculo entre o protagonista e a pequena vida encapsulada se aprofunda rapidamente. Sam enxerga, em Lou, a filha que não teve chance de cuidar.

Infelizmente, um incidente dramático vem à tona: em um combate entre Sam e Higgs, tiros atingem a cápsula de Lou e o funcionamento da tecnologia é afetado. Embora Deadman tenha buscado solucionar o problema, ele percebeu que não haveria outra alternativa senão desativá-la permanentemente.

Tal fato nos leva à cena mais densa e emocionante de toda a história: o momento em que Sam pôde, pela primeira vez, abrir a cápsula de Lou para senti-la em seus braços e se despedir.

Naquele momento, Lou já não mais respirava ou respondia à estímulos (carinhos, massagem cardíaca, ventilação). Sam sofre diante da perda iminente ao perceber, naquele bebê, um motivo único para recomeçar. Ele se entrega à tentativa de ressuscitá-lo, assim como Cliff se entregou para protegê-lo da morte. Todo o coração de Sam estava ali, na esperança de ver, mais uma vez, o sorriso do pequeno companheiro:

“Anda, Lou, acorda. Anda, anda, anda. Levanta. Vamos lá, Lou, acorda!”

Não há resposta.

Com Lou sobre a palma de sua mão, Sam a eleva ao peito em sinal de despedida.

Em meio às lágrimas de Sam, Lou chora e sorri, voltando à vida.


Death Stranding nos apresenta a história de Sam Porter Bridges: o BB de Cliff, a compaixão de Amelie, o pai de Louise  —  mas, sobretudo, uma mensagem de esperança e recomeço.

Por que fazemos o que fazemos?

Por amor.

ProfGeo, curioso do mundo, jogador de videogame. Twitter: @sernikando