Torre do Terror | Vozes e Vultos (Netflix) – Quando o terror não é tão sobrenatural

Saudações amantes do terror, artes obscuras e todo tipo de entretenimento decrépito e abominável; Abrimos nossa nova série de matérias sobre filmes, séries e jogos de terror e temas adjuntos com uma breve análise sem spoilers do lançamento da Netflix, o filme “Vozes e Vultos” estrelado por Amanda Seyfried e James Norton.

Devo adiantar esta análise dizendo que não será como eu planejei a estreia dessa nova série de terror aqui na Torre, e isso se dá pelo fato de nosso filme inicial não ter me soado como um Terror de fato, mas sim, um suspense sobrenatural.

Em Vozes e Vultos, acompanhamos a família de Catherine e George em sua mudança para um vilarejo tradicional e antigo onde George conseguiu um bom emprego como professor e comprou a boa e velha casa no campo, com vizinhos distantes, um balanço e uma árvore solitária. Assim nasce todo início de um filme de terror com promessas de sustos e grandes reviravoltas, certo? Claro que sim.

Por mais que esse caminho estivesse bem pavimentado, a trama não ajuda muito e o que temos é um início lento onde precisamos de um pouco de paciência até que de fato possamos experimentar os primeiros fatos aterrorizantes que são, é claro, os próprios seres humanos.

Vozes e Vultos Netflix
Amanda Seyfried e James Norton são os protagonistas do novo “terror” da Netflix.

Numa tentativa de inserir o sobrenatural em conflitos pré-existentes, o maior medo que sentimos em toda a trama é o frágil castelo de mentiras e decisões questionáveis tomadas dentro do matrimônio e que precisam ser sustentadas para que a vida siga seu curso “natural”, porém, a grande questão aqui gira em torno do quão longe iríamos para manter uma aparência de normalidade, para alimentar a nossa própria satisfação e ganância?

O elemento sobrenatural fica em segundo plano, afinal, por mais que o roteiro consiga sim traçar uma conexão entre as mulheres que habitavam a casa adquirida por George e, assim como Catherine, severamente oprimidas por seus maridos que desaprovavam suas condutas e interesses pelas coisas sobrenaturais, o grande terror de toda a trama é, de fato, o caráter podre e vil de seus antagonistas e, acreditem, não há sobrenatural que precise ser evocado quando o próprio homem é capaz de endemoniar-se por si só para conseguir satisfação, sucesso e prestígio. Numa trama marcada por mentiras compulsivas, adultério, manipulação e uma pitada de influencia demoníaca, a impressão que temos no decorrer do segundo ato é de que temos excelentes personagens mal aproveitados e pouco desenvolvidos, como é o caso de Willis Howell, personagem interpretada pela Natalia Dyer e do jovem Eddie Vayle, interpretado por Alex Neustaedter; São personagens interessantes, porém, com tempo de tela e desenvolvimento muito menor do que poderiam ter tido, principalmente pelo passado do jovem Eddie e sua importância em toda a trama, ou melhor, na importância que ele poderia ter tido caso bem aproveitado.

Apesar de errar a mão com poucos elementos assustadores e sobrenaturais, limitados a poucas aparições nos dois primeiros atos e um CGI extremamente questionável, o filme acerta no arco do casal protagonista ao honrar o que esse tipo de filme faz de melhor: expor a podridão da mente humana e a falta de limites para quem se inclina a uma vida auto-suficiente, e mesmo os que são colocados como mocinhos aqui acabam tendo fraquezas e quedas expostas e isso evidencia a fragilidade de nossas paixões e inclinações ao mal, mesmo quando intentamos viver de maneira minimamente coerente.

Mas e aí, vale a pena?

Como uma opção de entretenimento de suspense sobrenatural pode ser que Vozes e Vultos prenda sua atenção, mas não espere por fortes emoções, mas por questionamentos sobre a natureza humana e sua estreita relação com a maldade, mentira e devoção a si mesmo e aos seus objetivos. Leve em consideração que toda a carga de sobrenatural que deveria ter sido melhor distribuída no decorrer do filme ficou guardadinha pro terceiro ato, e não adianta reclamar, se você chegar até o final, persevere, só não diga que eu não avisei.

Jogador de shooter, survival horror, horror games e todos seus sub-gêneros. Músico e fã de Queen, Muse e Avenged Sevenfold. Idoso de alma e amante de café.