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Crítica | A Mulher que Fugiu

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Cinema

Crítica | A Mulher que Fugiu

Lançado em 2020, A Mulher que Fugiu (The Woman Who Ran) é um filme escrito e dirigido pelo diretor sul-coreano Hong Sang-soo, e estreou nos cinemas brasileiros este ano, dia 10 de fevereiro. Estrelando a atriz Kim Min-hee, seus 77 minutos de duração mostram uma mulher que vaga despretensiosamente, encontrando algumas pessoas conhecidas, após seu marido viajar a trabalho. A própria narrativa descomprometida é uma marca do diretor Hong Sang-soo, onde, na maioria dos seus filmes, mostra personagens vivendo o acaso cotidiano, guardando muito bem seus conflitos internos – parecido com Roda do Destino 

Claro que esse estilo é intencionalmente inspirado nos filmes do diretor francês Éric Rohmer, tanto no enquadramento das câmeras – e nos zooms -, quanto na forma aberta da narrativa. Porém, existe algo nos filmes do Hong Sang-soo que só faz sentido analisando seu histórico como diretor e pessoa – muitas vezes retratando acontecimentos controversos de sua vida pessoal. Em A Mulher que Fugiu sente-se que o próprio diretor fugiu um pouco dos dramas pessoais de sua vida representados em Certo Agora, Errado Antes (2015) e Na Praia à Noite Sozinha (2017), onde os personagens são movidos por conflitos que chegam a um ápice de externalização.  

Nesse filme o que move a personagem de Kim é algo completamente internalizado, mas que vamos descobrindo conforme a linguagem nos sugere. O fato de a personagem sair sem rumo está muito relacionado ao seu casamento de 5 anos, onde ela e seu marido passam todos os dias juntos. Acaba sendo uma própria redescoberta de sua solidão, se reconhecendo tanto na bela vista de um apartamento até sua ida ao cinema – na qual come um sanduíche escondida.  

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A verdade é que procurar sentido e motivações num filme de Hong Sang-soo é algo posterior a experiência de assistir a seus filmes, visto que o prazer de assistir é poder acompanhar diálogos despreocupados, rotineiros, que revelam certos aspectos da história, mas nos encantam por não se prender apenas a isso. Seu próprio método de escrita e confecção carrega muito improviso, assim como um humor sútil, que transparece sinceridade – muitas vezes num tom tragicômico.  

Assistir A Mulher que Fugiu nos cinemas garante, ao menos, uma estética linda de ser apreciada. Cenários confortantes, como cafés, salas de estar e cinemas carregam cores amenas e luzes sutis, nos imergindo num ambiente de puro relaxamento e contemplação. O mesmo vale para a trilha, que é pouco utilizada, mas se desvencilha das orquestras clássicas. Os próprios sons carregam uma produção lo-fi e uma atmosfera quase dreampop, bem reverberada. A própria soundtrack é produzida pelo Hong Sang-soo. 

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Não há formas de definir A Mulher que Fugiu (2020), pois se trata de uma experiência particularmente aberta. O caráter artístico da obra de Hong Sang-soo nos desprende de modelos narrativos mais convencionais, de roteiros calculados, e retrata de forma mais ampla uma história, um personagem ou alguma situação. São casualidades que se entrelaçam de forma curiosa, e abrem margem para um mistério que não necessita de uma resolução. Existe qualidade em atuação, cenários, narrativa e estética, mas que são elaborados com influência do cinema europeu, se diferenciando dos filmes sul-coreanos que ganharam a atenção nos últimos anos. 

A Mulher que Fugiu
4 / 5 Nota final
Veredito da Torre
A Mulher que Fugiu (2020) é uma obra extremamente curiosa, agradável e receptiva. Com diálogos reflexivos e momentos de puro relaxamento, somos convidados a assistir esse filme como se fosse uma pintura, que se revela aos poucos em seus detalhes. Porém, o que nos prende é a própria amplitude de sua vista, representando as vastas possibilidades que compõe os sentimentos da protagonista vivenciando um momento incomum.
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Jornalista e pós-graduando em Metafísica e Epistemologia. Atualmente sou redator no Torre de Controle.

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