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Oscar 2022: Drive My Car | Crítica

yusuke e mitari

Cinema

Oscar 2022: Drive My Car | Crítica

Dirigido por Ryusuke Hamaguchi, Drive My Car é um filme japonês lançado em 2021, ganhador de diversos prêmios e candidato ao Oscar. Seu roteiro é adaptação do conto homônimo do escritor Haruki Murakami, presente na coletânea “Men Without Women” (Homens Sem Mulheres), sendo adaptado por Takamasa Oe e o próprio Ryusuke. O longa foi lançado nos cinemas brasileiros no dia 17 de março, e deve chegar em breve no MUBI e na HBO Max.  

A história gira em torno de Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima), um diretor/ator de teatro, que dois anos após perder sua esposa, a roteirista Oto Kafuku (Reika Kirishima), vai para Hiroshima dirigir uma peça adaptada de Tchekhov. Chegando lá, a produção do teatro disponibiliza uma motorista pra ele, Misaki Watari (Toko Miura), disposta a dirigir o precioso carro vermelho de Yusuke, um Saab 900 Turbo. A partir de então, ambos começam a desenvolver uma relação de empatia e confiança, ao se deslocarem pelas estradas japonesas.  

Drive My Car possui 179 minutos de duração, mas não passa a sensação de ser um filme realmente grande. Isso se deve ao bom balanço entre uma cinematografia belíssima, que ganha espaço mostrando as paisagens, principalmente nas cenas de viagens de carro, mas também por seu roteiro, que não opila acontecimentos atrás de acontecimentos num emaranhado de informações, fazendo um bom uso de subtexto.  

Oto e Yusuke em Drive My Car

Uma síntese entre teatro, literatura e cinema

Por ser uma adaptação do conto de Murakami, é evidente que o filme possui uma estranheza, uma aura misteriosa, que casa muito bem com o estilo de Ryusuke Hamaguchi. E o diretor constantemente interrelaciona seu estilo cinematográfico no próprio estilo obscuro de outros autores. É o caso de Roda do Destino (2021), onde se utiliza do acaso mágico de Éric Rohmer, Asako I & II (2018) na adaptação da escritora Tomoka Shibasaki, Happy Hour (2015), que é a própria extensão da sua misteriosa busca por compreensão, e agora com Drive My Car (2021), adaptando Murakami.  

Assim como o filme coreano Burning (2018), de Lee Chang-dong – uma adaptação do mesmo escritor -, Drive My Car se utiliza bastante de um subtexto enigmático, que aqui não se dá através dos sonhos, dos delírios ou de uma paródia de Faulkner, mas sim pela própria peça de Tchekhov. As falas da peça revelam muito do interior dos personagens, ressaltando um pessimismo com a vida, ou um niilismo russo, que evidencia-se quando Vânia, o personagem da peça, diz que poderia ser o próximo Schopenhauer ou Dostoiévski.  

“The truth, no matter what it is, isn’t that frightening”.

Essa ambição pessimista é transferida da peça para a vida real, devido ao estado de luto de Yusuke ao perder as mulheres da sua vida, na mesma medida em que a verdade é ocultada aos seus olhos. Isso ocorre pois Murakami constantemente trata de infidelidades, de um jeito desolador, mas também porque Ryusuke trabalha em seus filmes a própria natureza da mulher – sempre com traições -, dessa vez através de uma perspectiva baseada em perda, luto e memória. Essa temática determina o próprio buraco abissal do qual Yusuke não consegue sair, desenvolvendo sua dor num mistério jamais resolvido.  

Yusuke e Misaki

Se por um lado é dolorido, por outro, a trajetória do longa se debruça num aprendizado constante de compreensão e empatia. Aqui, a personagem Misaki Watari é fundamental, pois ao estar perdida num buraco de natureza semelhante, acaba sendo o próprio motor de enfrentamento que Yusuke precisa – sem suas mulheres. Esse segmento da narrativa contorna gradativamente sua introdução densa, demonstrando com leveza a compaixão que dois seres humanos desenvolvem entre si. Conectados, é claro, pelo seu carro – o título Drive My Car é algo muito mais significativo do que uma simples referência aos Beatles.  

A ambientação em Hiroshima também preenche muito do contexto criado. O teatro em si, ocasionalmente me remeteu ao grupo teatral morto pela bomba de Hiroshima, no acontecimento relatado em Labyrinth of Cinema (2019), do diretor Nobuhiko Kobayashi. Ao mesmo tempo, essa relação entre teatro e realidade, que busca um esclarecimento sobre uma perda através da memória, me lembraram do livro Morte na Água (2009) de Kenzaburo Oe, onde o mito e a realidade se misturam. E a necessidade de compreensão nesse contexto teatral é exposta em alguns atores da peça, que falam outras línguas, como mandarim e a língua de sinais coreana.  

Drive My Car possui uma estética realista e memorável

Tratando de um ponto crucial, a estética do filme é impressionante. A cinematografia de Hidetoshi Shinomiya explora com profundidade a amplitude e a beleza dos cenários, tanto nas áreas mais afastadas – e arborizadas – de Hiroshima, quanto nas cidades. E o trabalho com as luzes e as cores é reminiscente, como se as ondas de luzes de semáforos, postes e letreiros estivessem representando uma visão noturna realista. É um aspecto fotográfico que nos conecta com a beleza da realidade, que tenta ser superada na história. 

A trilha sonora de Eiko Ishibashi também é ideal para a abordagem da narrativa. Constantemente intercalando trilhas misteriosas e sensíveis com a música tema do filme, que me parece conter alguns traços de bossa nova – e uma certa leveza. Parece haver também, principalmente em algumas baterias, a tentativa de simular uma ambiência jazzy, como é clássico dos livros de Murakami. Ainda assim, a produção sonora valoriza o silêncio em diversas partes, como é de se esperar num filme desse teor.  

cigarro no carro

Em conclusão, Drive My Car (2021) se consagra como a melhor produção do ano passado, retratando brilhantemente sua adaptação do conto de Murakami. Parecido com outras adaptações, como Tony Takitani (2004), de Jun Ichikawa, e Burning (2018), de Lee Chang-dong, o filme retrata a perda visceral de alguém, refletido numa desilusão existencial enigmática. E seu percurso projeta o sentido certo para uma superação, com dor, beleza e compreensão, ainda que reste uma incerteza constante diante da verdade sobre a vida.

 

Drive My Car
5 / 5 Nota final
Veredito da Torre
Drive My Car (2021) é uma obra única e completa, onde o diretor Ryusuke Hamaguchi faz uso de todo seu potencial para contar uma história adaptada. Com primazia em estética, atuações e significado, seus 179 minutos se desenrolam num percurso sobre compreensão, luto e aceitação, que diluídos em diferentes situações estranhas, conseguem demonstrar a beleza essencial da vida, mesmo em momentos onde o desconhecido se converte em puro vazio.
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Jornalista e pós-graduando em Metafísica e Epistemologia. Atualmente sou redator no Torre de Controle.

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