Conecte-se com a Torre

Crítica | Palavras que Borbulham como Refrigerante

Palavras que Borbulham como Refrigerante

Cinema

Crítica | Palavras que Borbulham como Refrigerante

Palavras que Borbulham como Refrigerante (Words Bubble Up Like Soda Pop) é uma animação japonesa dirigida por Kyohei Ishiguro e lançado em 2021.

Palavras que Borbulham como Refrigerante (Words Bubble Up Like Soda Pop) é uma animação japonesa dirigida por Kyohei Ishiguro e lançada em 2021. O longa original da Netflix conta a história de Cerejinha, um adolescente low-profile totalmente imerso no mundo dos haikus, e de Sorrisinho, uma influenciadora que usa máscara para não ter que mostrar seus dentes incisivos e seu aparelho dental. Só essa apresentação pode parecer bem excêntrica, o que de fato o filme é. Já no princípio podemos perceber esse caráter próprio, que, por mais divisor de opiniões que possa ser, se difere dos demais filmes deste gênero.

Do princípio já entendemos que o anime possui um humor escrachado, além de um ritmo ligeiro, que não pretende te dar longas pausas para assimilar uma situação ou a motivação de algum personagem. E isso na verdade acaba sendo um diferencial positivo, que se assimila com o próprio formato dos haikus, presentes em quase todos momentos do filme. É como se esse aspecto cômico que o anime carrega te desarmasse para as situações de maior apelo emocional, que ficam na espreita para te surpreender.

Os haikus, para quem não sabe, é um tipo breve de poesia japonesa, que normalmente se constrói em três pequenas partes, como por exemplo:

Tomada na Mão

Esvai em lagrimas a

Geada outonal…

Bashô

Claro, na tradução se perdem alguns aspectos que tornam o haiku tão significativo na língua japonesa, mas é fundamental ilustrar pois é um fator que molda o filme. O próprio personagem Cerejinha se envolve profundamente na produção de haikus – ao ponto de influenciar um personagem que grafita haikus pela cidade afora -, mas é entendível que essa forma poética na qual ele tenta se expressar culmina no próprio método no qual o filme se desenrola. A essência breve do haiku, que se constrói dentro de um recitar que entone a emoção, é incorporado pela própria natureza do anime conforme Cerejinha perde a vergonha de recitar – ao mesmo tempo que busca coragem para se comunicar com Sorrisinho.

Em contraste, Sorrisinho tem uma comunicação direta com seu público virtual, e não tem relação com a poética. É como se a virtualidade do nosso tempo se mostrasse na sua forma mais pura, enquanto define no filme a temporalidade da internet como seu próprio contexto. Ele se comunica com o nosso tempo. Porém, claro, é percebido como passível de mudanças a partir do momento que Cerejinha e Sorrisinho se conhecem. E é possível delimitar claramente as diferenças de como o filme começa e termina, nessa mescla do que é expressivo e literal com aquilo que é rápido e direto.

Explicitar mais detalhes da história com certeza estragaria a experiência, mas o filme não se resume à narrativa, demonstrando uma permanente tentativa sensorial de nos inserir em sua atmosfera. É só ouvir a trilha sonora discreta, moderna e suave, como se estivéssemos na espera de uma ligação pra algum serviço de operadora – mas de forma atualizada, com instrumental eletrônico. É importante se atentar pra isso, pois umas das características de Cerejinha é utilizar fones de ouvido – pois gosta de sentir o mundo no completo silencio. Portanto o anime quase não trabalha com sons de ambientação, mas vai se abrindo pra essa possibilidade no seu decorrer.

Palavras que Borbulham como Refrigerante.

Esse teor discreto da sonoridade do filme, entra em contraste com o visual, que é ilustrado em cores vibrantes – chega a doer os olhos. Mas faz jus ao estilo da arte, que é muito original e traz personalidade pra estética dos ambientes rurais e do shopping, que são os dois palcos principais. A coloração e os traços estabelecem um diálogo.

Em minhas considerações finais, posso dizer que Palavras que Borbulham como Refrigerante me atingiu de uma forma muito pessoal. E isso – inevitavelmente – se reflete na autoria dessa crítica, porém, sem se sobrepor ao mérito próprio do longa, que possui qualidades óbvias. Pode ser que não seja um anime que agrade todo mundo, visto suas particularidades. Mas só por se tratar de um “romance”, já é uma vitória por não ter se submetido aos moldes já esgotados de Your Name – saturado pelo próprio Makoto Shinkai.

Os haikus que tanto acarretam significados.

Palavras que Borbulham Como Refrigerante aposta na expressividade em sintonia com o que é direto e explícito. As situações escancaradas do filme se abstraem para interpretações possíveis através das poéticas dos haikus. É uma sintonia constante entre o tradicional e o atual. Isso se reflete na história, nos personagens e no próprio ritmo, que voa em seus 87 minutos – com a brevidade e como o dito de um haiku.  

Crítica | Palavras que Borbulham como Refrigerante

Edisson Schwartzhaupt

Palavras que Borbulham como Refrigerante

Um longa ligeiro, de cores vibrantes, que se expressa através da literalidade do que é tradicional envolto numa perspectiva moderna. Com uma ideia cativante, Palavras que Borbulham como Refrigerante se revela uma ótima novidade para as animações japonesas.

4
Continue lendo
Leia também...

Jornalista e pós-graduando em Metafísica e Epistemologia. Atualmente sou redator no Torre de Controle.

Comentários

Mais em Cinema

Topo